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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Viver no interior não é fácil...

Com a "grande Crise" a que se colou a Troika, ainda pensámos - ingenuamente - que o regresso ao interior e a uma agricultura de subsistência pudesse motivar muito mais gente a fugir das urbes, em cujos prédios não dá para se plantar couves, como se sabe.
Mesmo assim, alguns "líricos" fizeram esse percurso, certamente com aquela ideia mítica da Aldeia e do interior como algo puro, solidário, povoado de gente boa.
A verdade é que já Rentes de Carvalho, há muitos anos, desmistificou essa imagem idílica da Aldeia assim vista da Cidade. A Aldeia (onde se incluem as Vilas, que são aldeias maiorzitas) não raro é pérfida, invejosa, mesquinha, mesmo odienta, onde, por vezes, certas "solidariedades" de interesses se conjugam para "fazer a folha" a quem se tente "armar em esperto", ou que se atreva a "pisar o risco"...

Para quem tenha dúvidas, aqui vos fica:

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/o-interior-ainda-e-duro-para-quem-o-escolhe-como-morada#_swa_cname=sapo24_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapo24_share

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Quando a Aldeia se torna putrefacta...

Da Aldeia os bons partiram há muito. Eram os mais capazes, os mais inteligentes, os mais sensatos. Os que ainda restam (ou restavam), ou iam aparecendo, anunciam-me que não tardam a partir. Alguns partiram para sempre, para o Além, jazem no campo santo... Manel, meu bom Amigo, lá onde estejas, sei que estás a ler-me e a sorrir... Só os filhos da puta não morrem, porque o Mal, esse é eterno. O veneno os conserva... E à medida que a Aldeia minga, que os empregos disponíveis (para não falar dos "tachos"), ou as oportunidades para esmirfar a teta da vaca da junta de freguesia, ou os dinheiros públicos, vão escasseando, mais os chicos-espertos olham de través para os que ainda restam que lhes possa fazer sombra. Na terra dos cegos, esses que se julgam com um olhinho vivo e pé ligeiro, de coluna vertebral mais do que dúctil, serpentina, almejam ser os reis. E entram a odiar de morte aqueles que eles sabem que têm dois olhos e lhes topam o jogo. Nem precisam de fazer sombra: basta saber que lhes topam o jogo. Além dos pobres homens e mulheres que trabalham e vão vivendo a sua vida, eram os puros, os honestos de antigamente, em extinção, a acabar no lar da terceira idade, há uns típicos papalvos ditos de "classe média", outros uns valdevinos que nada fazem mas com pretensões a intelectuais e que não suportam quem, no entender deles, os não deixam "brilhar" e estender-se ao comprido no sol dourado da "sua" Aldeia. Tornando-se bichos muito territoriais, tentam apoderar-se da Aldeia, consideram-se donos dela, e daí ao "vai lá para a tua terra!", mal pressentem que alguém dos que eles odeiam tem o handicap de não ter nascido no seu curral. Às vezes disfarçam, usam a tal duplicidade que lhes advém da dita ausência de coluna vertebral: pela frente uma coisa, por trás são outra. Então, à mínima questão, o verniz estala-lhe e o veneno vem ao de cima. E como lhes falta o intelecto (apesar de terem pretensões a tal), partem para a força e para a violência, aspirando assim à categoria de heróis que conseguiram correr com o cão que não tinha o mesmo cheiro - também é uma questão de feromonas... - O "bairrismo" é a expressão da territorialidade animal teorizada por K. Lorenz.
O grande mérito de Rentes de Carvalho foi o de ter desmistificado a Aldeia... sim, nós também a fantasiámos, a enaltecemos, a defendemos como reduto de todos os valores positivos, por oposição ao mundo cão exterior. Ingenuidade... - Como bem a pintou Rentes (basta ler "Ernestina", esse livro cruel), a Aldeia não é idílica; é violenta, pérfida, velhaca, invejosa, intriguista, conspirativa, delatora, chantagista, e sei lá de que mais é capaz para trucidar aqueles em que, basta um, ou uma, ponha a mira. Sim, pode haver uma excepção ou outra, mas não passam disso mesmo: excepções! - As tais que vão partindo, e desguarnecendo a Aldeia do sentido crítico positivo, ou seja, de sensatez. 
Nestes tempos de fome, de finitude, em que área do pantanal se vai reduzindo e o esterco concentrando, parece que a violência e o veneno se concentram também, tornando a Agressividade exponencial contra os que eles sabem que não são "dos seus". - Daí ao animalesco "vou-te correr daqui pra fora", é um passo... - E não adianta andarmos a cobrir isto com florinhas primaveris... 
Não há flores que nos salvem e disfarcem o cheiro putrefacto que se exala destes mundos em extinção... Não há remissão possível. Mas, partir, é fazer-lhes a vontade e, isso sim, seria um acto de cobardia. Ficar, talvez seja um exercício de masoquismo, mas a resistência não é para os fracos....







sexta-feira, 9 de maio de 2014

Há muitos, mas estes estão em extinção...

Algures nas terras de Miranda, região autónoma da República de Trás-os-Montes e Alto Douro, há uma associação que muito tem feito pela preservação dos asininos, nome pomposo para os burricos que tanta importância tiveram, no Passado, nesta nossa Aldeia real...
Hoje, tal como todo o interior, estão em extinção! Por isso aqui divulgamos mais uma iniciativa destes heróicos resistentes que pugnam pela preservação da espécie.
Parabéns e... Força!, malta da AEPGA!
com um abraço do
Ti Zé!

A AEPGA e o Dia Internacional do Burro
 
Há mais de uma década que a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino - AEPGA - trabalha no sentido de conservar o Burro de Miranda - única raça autóctone portuguesa desta espécie, particularmente ameaçada de extinção – e de dignificar todos os burros do país, dando a conhecer o seu carácter dócil, a cultura que lhe está associada e os vários papéis que tão bem sabe representar – de professor, guia, terapeuta e, sobretudo, de amigo.
 
É por isso que te convidamos a celebrar o Dia Internacional do Burro connosco: para relembrar o seu valor inestimável, não só aqui na Europa, onde essas novas facetas têm vindo a ser descobertas, mas também nos países em desenvolvimento, onde os burros são os principais companheiros de trabalho de milhões de famílias desfavorecidas que, no entanto, raramente têm o conhecimento ou os recursos para lhes garantirem uma vida com saúde e bem-estar.
 
Ilustra as tuas orelhas de burro e exibe-as com orgulho – e não com vergonha, como aconteceu ao longo de séculos! Ao participares nesta acção, estarás a passar a mensagem de que o burro é um companheiro precioso que merece ter uma vida com qualidade, saúde e felicidade, e de que o Burro de Miranda, em particular, precisa de protecção. Junta-te a nós!
 
Para mais informações e download das orelhas de burro: www.diadoburro.pt

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AEPGA and the International Donkey Day
 
AEPGA, Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, has been working for over a decade to preserve the Miranda Donkey – the only Portuguese native breed of this species, which is particularly endangered – and to dignify every donkey in the country, namely by showing their gentle character, the cultural aspects related to them, and the various roles that they play so perfectly – as teachers, guides, therapists and, most importantly, as friends.
 
This is why we would like to invite you to celebrate the International Donkey Day with us: to remind the world of their priceless worth, not only here in Europe, where those new dimensions are being discovered, but also in developing countries, where donkeys are the main work partners of thousands of poor families who, nevertheless, seldom have the knowledge or the resources to ensure they lead healthy lives.
 
Decorate your donkey ears and flaunt them with pride – and not shame, as has happened for centuries! By participating in this action, you will be passing down the message that the donkey is a wonderful companion who deserves to live a good, healthy and happy life, and that the Miranda Donkey in particular is in need of protection.
 
Please join us!
 
For more information and download of donkey ears: www.diadoburro.PT
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Internet e espionagem...

Manuel Loff (prof. da Faculdade de Letras da U.P.), in Público, 31.10.2013:

"A internet foi transformada no mais perigoso facilitador do Totalitarismo"

Há dias passou por aí uma reportagem televisiva sobre despedimentos por causa de coisas postadas nos Facebooks (críticas de empregados a entidades patronais, etc.). E disse-se que nos EUA antes de se contratar alguém, a entidade contratante tratava de espiolhar o Facebook do candidato, isto para já não falar de tudo o que pudesse vir na net sobre o sujeito (ainda que sejam aleivosidades e mentiras), e, para pior, quem não tenha perfil no Face também pode não ser aceite em concurso pois isso indicia alguém "muito estranho", que não estando em redes sociais era porque devia ter "algo a esconder".... Mas enfim, na América tudo é possível, sobretudo agora que se sabe que o "Big Brother" chegou em força e nem o Papa escapou, para além de tudo o que era dirigente mundial (os russos das soviécias tinham a fama de grandes espiões, mas agora se vê que a América, com os seus satélitezinhos, não lhe fica atrás, mau grado querer continuar a aparecer como a "campeã da democracia e da Liberdade"). Razão tinha Orwell...
O problema é que isto do espiolhanço e da bufaria não é coisa nova... Na velha Aldeia sempre houve os "traz e leva", "as mulherzinhas de soalheiro" (quiçá as inventoras do jornalismo cor-de-rosa), e, a um nível mais requintado, os "Bubo-bubos" pagos pelos manda-chuvas, mesmo que a coberto de outros cargos profissionais. Entre estes, havia-os os de nível tradicional, os "orelhas" que pairavam pelos cafés, praças, repartições, e, com a evolução tecnológica, alguns tornaram-se mais sofisticados. Recordo-me de uma vez o Manda-chuva da minha aldeia me ter mostrado um "print" de um diálogo entre dois jovens aldeãos, numa rede social, creio que ainda um "chat" (curto estes neologismos nas "netes"!), em que um se gabava para outro de ter "espetado uma granda sarda" (vulgo bebedeira) a um qualquer artista citadino, convidado pelo dito Manda-chuva, depois de uma actuação do dito artista na praça da aldeia. "- Veja só se isto é coisa que se diga, a gozar com um convidado nosso!?..." - perguntava-me, esquecendo-se que o dito convidado até podia ter achado piada aos comentários, depois da "recepção copofónica"... - Creio que deve ter mostrado o mesmo papel a vários aldeãos que o procuraram por esses dias, por outros assuntos, mas, nas entrevistas com o Manda-chuva havia sempre um "período de antes, ou depois, da ordem do dia" em que o homem dizia o que lhe ia na alma. Com que objectivo, não sei: talvez para nos dizer, indirectamente, "cuidado com o que vc. possa dizer por aí, mesmo nas netes, porque eu sei tudo!...." - E sabia. Não fosse isto um país de bufos desde tempos imemoriais. Quem alimentou a Inquisição durante séculos?
A bufaria está na massa do sangue do Tuga, e, se for preciso, para se "queimar" um rival, um concorrente, um adversário, para já não falar de um inimigo, perscruta-se-lhe a vidinha toda, percorre-se-lhe os itinerários, procura-se quem o conhece, até se se descobrir o que diz, e sobre quem o diz. Sendo que dantes se podia inventar que disse o que não teria dito (ou não teria dito bem assim), e tudo dependia depois do "emprenhanço de orelha" da parte do Manda-chuva, se valorizava a fonte, ou se lhe interessava acreditar no que a "fonte" (leia-se, o bufo) lhe transmitia. Agora, se for preciso usam-se gravadores, ou então procuram-se as "evidências" na net. E ele há burrinhos(as) que escarrapacham a vidinha toda nos Face's, parece que ignorando que há por aí  espiões e espias que não fazem outra coisa do que espiolhar, dia e noite, o que diz este(a) ou aquele(a), na convicção de que muita dessa informação "pode dar jeito". Desconfiem sempre desses que se insinuam e pedem "Amizade" a tudo o que é cão e gato, que freneticamente percorrem todos os blogues e batem o terreno como coiotes esfaimados à procura.... Verdadeiros caçadores de "informações" para depois com elas jogarem, insinuando-se junto dos poderes e dos poderosos, sempre em proveito próprio. Outros há que, não tão freneticamente, mas igualmente cirúrgicos e insidiosos, escolhem os alvos, descobrem-lhe os rastos e, quais pisteiros de savana, seguem silenciosamente as vítimas, reencaminhando a "informação" para "quem de direito"... Alguns saberão até quem nós somos, farejam-nos sob a nossa croça de Ti Zé, suspeitam onde fica a nossa Aldeia e até o tugúrio onde moramos. Esperam, silenciosamente, que avancemos a cabeça para fora da carapaça de cágado, para no-la cortarem, chibando às orelhas certas... Assobiamos para o lado e fingimos que não os vemos, mas que eles andam por'i, lá isso andam...
Este é o ponto em que aldeia real e virtual se tocam e complementam, e o melhor mesmo é estarmos caladinhos, para não alimentarmos novos Bubo-bubos, e, no fim, não levarmos no focinho... - Enfim, é preciso aprender a saber viver, nestes arremedos de "democracia", global e local...

domingo, 6 de outubro de 2013

Bubo Bubo

Caricata figura o Bubo Bubo (B.B). Entre a fauna que pulula pela Aldeia, Bubo-Bubo era um enigma, com todas as características de um engano da natureza. E nessa duplicidade transcorreu a sua existência, com o instinto furão de quem escolhe fidelidades caninas, duráveis enquanto dura o osso. E o osso durou, de facto, bastante. Anos e anos a fio, que quase fizeram de BB, em certos momentos, uma espécie de confidente do dono, sobretudo quando este, em baixo de forma e no princípio da decadência, se refugiava na "nigth", afogando mágoas. BB, solicitamente, acompanhava o dono nessas horas, tirando disso o maior partido em termos de consolidação do seu papel na casota. E, como sempre, continuava o seu mister de espia, e disso ia vivendo. Parecia eterna tamanha dedicação.
Mas eis que um rumor vindo não sei de que falha sísmica se começou a ouvir, a avolumar, até o ruído alastrar de aldeia em aldeia, onde uma nova turba vinha pôr em causa o velho dono da quinta em que BB. servia. BB começou a inquietar-se. E a coberto da sua condição de agente duplo(a), passou a frequentar os arraiais da nova turba, para ver o que se passava. Se a coisa tombasse para o lado do grupo do Dono, diria que esteve a espiar os tais outros e faria relatórios completos do que lá se passara e dissera. Mas, se porventura o Dono e o seu grupo fossem dessa para melhor, faria render essa presença assídua e estudada. E assim foi. O dono e o grupo acabaram por ir mesmo "desta para melhor", e BB, de boa consciência, passou a frequentar o grupo dos amigos dos novos senhores, na esperança de poder continuar a roer, calmamente, o seu ossito. Ah, e já agora, a espiar e a fornecer informações sobre "suspeitos", por conta dos novos Donos....
Enfim, são coisas cá da Aldeia...

sábado, 28 de setembro de 2013

AUTÁRQUICAS 2013 - reflexões em dia de Reflexão….

Amanhã é o Dia D para muitos(as). Depois do folclore vem a Decisão.
Só me espantou a vitalidade (e, já agora, o desplante) do pessoal que apoiou e apoia os tais partidos do “arco da governação” que têm ajudado a afundar o “país” em consonância com os ventos do neo-liberalismo que do exterior sopram… Claro que entre esses, os que ora estão no (des)Governo, até porque faz parte da sua cartilha de desmantelamento do Estado (-Providência e não só), são os maiores responsáveis.
E como é possível que haja ainda quem aceite integrar listas para as Autárquicas, sob a bandeira dessa gente?? – Uma bandeira sob a qual andaram criaturas do tipo Oliveira e Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro e afins??
E, para pior, como é possível que muitas dessas listas ainda se prefigurem como potenciais vencedoras, em muitos sítios (como por exemplo cá pela Aldeia!), dando novo alento para os tais (des)governantes prosseguirem a sua política de desvastação, respaldados na famigerada Troika, e indo até para além dela??
E, como é possível que ainda haja gente ingénua que ainda acorra ao folclore, integrando caravanas do buzinão e agitando bandeirinhas, convencidos de que “estes” é que lhes vão dar os tachos ou empreguinhos que os outros não deram?? – isto quando se sabe que os empregos na função pública, mormente autárquica, estão congelados, e quando se perspectiva, se calhar logo nos dias a seguir às eleições, mais despedimentos de funcionários, agora na administração local (o que só terá sido habilmente retardado, por parte do (des)Governo, só por causa das eleições autárquicas…)
É claro que, relativamente ao parágrafo anterior, muitos dos que aderem a um “dado lado”, mesmo que saibam que não vão ter direito a nada, vão para lá como “revanche” de não lhe “terem arranjado nada” a eles… É por pura vingança, raiva e inveja (sentimentos tipicamente “tugas”), num “país” em que, sobretudo no interior, os municípios se tornaram as maiores entidades empregadoras, de forma directa ou indirecta. E, nessa linha de comportamento, assistimos às mais miseráveis viradas de casaca, alguns com o cartão partidário de um lado a bandearem-se para o outro…
Deixou de haver ética, moral, princípios ou convicções mais de ordem ideológica. A ideologia morreu. O que há, pura e simplesmente, são interesses. E os partidos, para não falar em alianças conjunturais de tipo “albergues espanhóis” de certas candidaturas, mais não são do que centrais distribuidoras de mordomias e satisfação de certos e determinados interesses que a seu tempo se revelarão, mal os vendedores de ilusões e da banha da cobra cheguem ao Poder…
Passados tantos anos, se algum dia alguma ilusão tive relativamente a candidatos a mandantes da Aldeia, desencantei-me. Conheço já o suficiente da natureza humana para saber que virão os ajustes de contas e as decapitações, por um lado, e, por outro, a promoção e o apoio aos “nossos”, sejam eles umas (pretensas) luminárias, ou umas abéculas.
Não se privilegiará nunca a meritocracia, nem se aplicarão políticas delineadas de forma estruturada, em função de estratégias bem definidas, a curto, médio e longo prazo, procurando mobilizar para isso todas as forças vivas, sejam “nossos” ou não.
Num território cada vez mais desertificado de gente, é curioso que tendo lido os programas das candidaturas autárquicas cá da Aldeia, a palavra Desertificação é praticamente ausente. Parece não ter havido um diagnóstico profundo da realidade e da situação demográfica, económica, social, meio físico e humano, pontos fracos e pontos fortes (ou menos fracos), de forma a, partindo daí, pensar um verdadeiro programa de acção, realista mas ao mesmo tempo com a ambição de procurar inverter a tendência que é a do deserto. E, para este fim, TODOS seriam necessários. Só que sabemos que não vai ser assim. Vai ser antes: correr com alguns, para ver se garantimos os nossos, em função das nossas politicazinhas casuísticas… Não admira, assim, que na elaboração desses “programas” não se tenha ouvido a totalidade das chamadas “forças vivas”, entidades e até pessoas que poderiam dar um contributo válido, quer no que toca às dificuldades de cada sector, quer ainda no que toca às suas aspirações e ideias para melhor resolver os problemas e projectar a Aldeia. Propõe-se nesses programas que se venham a elaborar Orçamentos Participados pela população, numa espécie de democracia directa. Parece-nos que teria sido mais curial essa participação popular logo na fase da elaboração dos programas de governação. Era mais lógico e menos controverso.
Vamos esperar para ver o que acontece. Veremos se ao menos a atitude não é a de, uma vez vitoriosos, cairmos no costumeiro “quero, posso e mando”, porque fomos "democraticamente eleitos" pelo povo. É um conceito muito “tuga” da democracia: esta só serve para se “ir a votos”. Depois fazemos como entendermos, porque fomos “mandatados” pelo povo. Ora o mandato deveria recair sobre os Programas, e se o povo tivesse participado na sua elaboração, contribuiria melhor para a sua implementação, e, a jusante, faria sentido, igualmente, a sua participação nos orçamentos anuais e a fiscalização do cumprimento das linhas mestras previamente definidas, em vez de se fiar em promessas mais ou menos vagas, ou outras até estapafúrdias.
As campanhas deveriam ser, em vez do folclore, um período de reflexão no final de um mandato, de confrontação de ideias e de planos estratégicos. Seria uma oportunidade para se tentar demonstrar ao povo que a nossa “receita” era melhor por isto e isto, e que o feixe de ideias da “outra parte” pecava por isto e aquilo, obviamente de uma forma civilizada. Dessa forma abriam-se pontes para o diálogo futuro, em termos de se encontrar uma convergência que envolvesse todos, para bem do território da Aldeia, sem perder de vista os territórios de outras “Aldeias”. E se a nível mais geral os mesmos princípios prevalecessem, o resultado final seria, de facto, um país a sério, decerto mais equilibrado e mais próspero. Assim, se a Aldeia é o átomo da “território nacional” e se logo aqui se vê como as coisas funcionam, enfim, como dizia o velho adágio popular, “quem viu a sua aldeia, viu o mundo todo”.
Conclui-se que há um longo caminho ainda a percorrer no sentido de uma verdadeira Democracia. Numa verdadeira democracia os cidadãos deveriam ir ouvir os candidatos – de um lado e de outro  – depois de terem lido os respectivos programas. Deveriam poder fazer perguntas, e interpelar os candidatos em vez de agitar bandeirinhas, tocar buzinas e bater palmas. Infelizmente, se se vai a um dado “comício”, é-se logo conotado com esses; se se vai ao dos “outros”, os anteriores olham-nos logo de través, a pensar que já nos “bandeámos” para o outro lado…. Porque continua a imperar o princípio fascistóide do “quem não é por nós, é contra nós”…
Assim sendo, só nos resta remetermo-nos ao nosso silêncio e a distanciar-nos de tudo isto, esperando que o povo faça a sua escolha, limitando-nos a esperar a nossa vez de ir à urna e nada mais. – Ah, e depois levar nas trombas dos dois lados, porque não estivemos em lado nenhum. Talvez a República Centro-africana não esteja assim tão longe...

terça-feira, 23 de abril de 2013

Da Trasmontânia: burros de verdade

     Fotografia: Mónica Salgado


Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

                       Mário de Sá Carneiro
(http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v338.txt)


Adoro este poema e decidi partilhá-lo com todos vocês.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O verdadeiro medo de existir...

 
Quando em Setembro de 2004 o filósofo José Gil escrevia as últimas linhas de um livrinho que muito vendeu sob o título "Portugal, Hoje. O Medo de Existir", ainda a procissão estava no adro. Eram ainda queixumes vagos e de barriga cheia, mais de índole filosófica, sobre um "medo de existir" genérico e difuso, por parte dos portugueses. Tratava-se de um tentame de análise da mentalidade tuga, ao longo dos tempos, sobretudo desde os tempos do Estado Novo, culminando no período em que o livro foi escrito, o breve "reinado" de Santana Lopes, que exageradamente o autor empolou muito mais do que a importância que lhe era devida. De permeio o período do que chamamos "o Grande Regabofe", que principia no "Enriqueci!" cavaquista (a expressão é de José Gil). Este interlúdio de aparente enriquecimento sem sustentação, relacionado com a última pataqueira - a dos dinheiros comunitários- gerou uma perplexidade a par de um certo deslumbramento, pelo que não se percebe muito bem onde andava então o medo. No capítulo intitulado  "De que é que se tem medo?", as respostasm não são bem claras. Parece que radica num medo atávico, ao Poder, um ingénuo "medo de não saber e de ser desmascarado", um "medo de ter medo", "medo de parecer ter medo, de parecer fraco, incapaz, ignorante, medíocre" (p. 80). Em última instância, era o velho medo de "falar", de "dizer" - a falta de liberdade de expressão, como se explana no capítulo sobre "O trauma português e o clima actual [2004]": "Mas tratar-se-á realmente de terror, ou mesmo de micro-terror, o que se passa na realidade actual da sociedade portuguesa?" - para depois glosar um caso que hoje já ninguém lembra, de umas certas pressões políticas sobre um canal privado de televisão por causa de umas diatribes do comentarista Marcelo Rebelo de Sousa, o que o levaram a demitir-se do cargo. Depois disso já houve as pressões de Sócrates sobre jornalistas, de Relvas idem, aspas, aspas... - sem que isso tirasse, de facto, o sono aos portugueses.
 
Vale a pena reler o livro, sobretudo para se perceber a trajectória que a Tugalândia tomou, até ao Medo a sério, o Terror a sério, em que vivemos. Este é bem menos prosaico e teórico. É real. É o medo de se perder o emprego, de se morrer à fome. É o medo de se ser assaltado, roubado e agredido. É o medo do idoso poder ser despejado do Lar que a reforma já não dá para pagar e que os filhos também não podem (ou não querem) pagar. É o medo de não se ter dinheiro para acabar o curso. É o medo de perder a casa e poder ter de ir de domir para a rua, sob uns cartões. É o medo que o desespero possa levar à loucura e ao suicídio.
 
Vale ainda a pena reler o livro, por alguns diagnósticos, ou melhor, constatações, que estão na raiz do problema, como por exemplo este parágrafo da pág. 72:
"A entrada de Portugal na União Europeia - de dentro para fora - processa-se, pois, através de mil ambiguidades. No meio da grande perturbação actual [2004] que a destruição do país arcaico provoca, agarramo-nos a automatismos afectivos, à tentação da corrupção (esperteza) por velhos hábitos de impunidade de classe, à inércia, ao compadrio (vestígios degenerados da antiga democracia afectiva), enfim não já ao familiarismo, que explodiu como meio envolvente, mas à família desfeita ainda pertinente como ideal imaginário que se remenda todos os dias com a ajuda de psiquiatras, psicólogos, psicanalistas" [isto era naquela altura, pois hoje já não há dinheiro para estes luxos de idas a psi's].
 
- Em suma, o que o autor não diz, mas nós intuímos, a diferença dramática desta Crise relativamente às crises do passado é que perdemos a rectaguarda que era a Aldeia, a real e a metafórica: da aldeia vinham as batatas, a hortaliça, o azeite, o queijinho e o salpicão, quando havia dificuldades na urbe. Só que agora os velhotes morreram ou estão no Lar de Terceira Idade, entrevados, e essa rectaguarda acabou. Como acabou a rectaguarda desse apoio afectivo, a Família.  E, perante o choque, desaprendida a agricultura e esquecidos os caminhos da Aldeia, estamos sós, órfãos e indefesos, perante uma besta-fera avassaladora que a cada momento nos pode devorar e a outros já devorou. Afinal, concluímos, eram de papel os sonhos e as promessas da mítica Europa e da aldeia global, perdemo-nos no virtual, deixámos a terra, perdemos o chão e ficámos sem nada.
Será ainda possível reaprender os caminhos da Aldeia real, a que tinha cheiros e aromas (do fumo da lareira, do estrume, das estevas e das urzes)? - E será que, depois, as troikas, os FMI's e Bróxelas, nos permitem plantar uma couve ou criar uma pita e um reco sem nos espremerem com impostos e com ASAE's??
 
Ti Zé da Aldeia

domingo, 20 de janeiro de 2013

AFINAL SEMPRE EXISTEM…

Conheci ontem um. Foi-me apresentado. Fazia 30 anos. Rapazito aparentemente de origem humilde, de lugar próximo cá da aldeia. A conversa recaiu nos dias que correm e nos males que nos atingem. Política, ou politiquice. Comunistas?, ai cruzes, abrenúncio! Os tempos que correm são consequência do “Grande Regabofe” – expressão minha, imodéstia aparte, mas traduzindo o que ele queria dizer, referindo-se aos tempos do crédito fácil e do passo maior que a perna. Os conceitos que tinha pareciam ter sido todos bebidos nos lugares-comuns da cassete neo-liberal caseira, injectada pela maioria somada PSD/CDS que se (nos)governa. A culpa era toda do desvario das pessoas que tinham gasto mais do que deviam, que deu nisto, que tínhamos de pagar, pelo que era preciso cortar, cortar!... Cortar no Estado, no Estado Social, pois claro, funcionários públicos, grandes parasitas. Contra-argumentei com o serviço público prestado às pessoas e à vantagem se desfrutar de serviços sem o acréscimo de mais-valias. Que nada!, a privada é que era, e que resolvia tudo muito melhor e mais barato. Pensões aos idosos? Num extremo de argumentação, o rapaz dá o exemplo da própria mãe, que nunca descontou para a segurança social e que até estava a beneficiar da reforma, tal como muita gente que não descontou e tinha igual benesse. Para o dito cujo, só quem descontou (ou pagou para um seguro de reforma) é que devia receber. Daqui se depreende que aos velhinhos que nunca descontaram para a Caixa, era dar-se-lhes uma injecção atrás da orelha quando chegassem à idade da “improdutividade” e do peso-morto, como se dizia, noutros tempos, que os tais comunistas iriam fazer quando chegassem ao poder.

Quis saber mais sobre o jovem. Que fazia? Era, estava-se a ver, um “jovem empresário”, certamente de elevado potencial. Vim a saber que do sector agro-pecuário e, disseram-me, bastante trabalhador (e eu a pensar que era um yuppie serôdio do séc. XXI). Não chegara a concluir o 12º ano, metera um projecto agrícola e vivia da terra e das ovelhas, lá na aldeia. Nessa zona não há grandes quintas, nem o rapaz era filho de grandes agrários (ao que julgo saber).

Constituía grande mistério para mim como é que num país pobre e a caminhar para miséria maior, partidos de direita neoliberal ganhavam eleições e, somando votos, chegavam até a maiorias governativas. No que toca à Tugalândia, tendo em conta sobretudo o resultado das últimas eleições, julgava eu que tal só se explicava pelo descontentamento relativamente às políticas restritivas ditadas pela conjuntura da grande crise internacional e por cá iniciadas pelo partido esquerdo do Centrão. Porque, aplicando-se o princípio da circunstância de Ortega y Gasset (“eu sou eu e a minha circunstância”), ser-se pobre e miserável não se coaduna com “opções de classe” (no jargão marxista) por partidos que representam os grandes interesses económicos. Desde as lutas sociais da Roma Antiga (de que ficaram registos escritos) se sabe que é assim. Bem, é claro que a Propaganda consegue ludibriar muita e boa gente, mas…

Continuando a perfilhar desta teoria da correlação entre situação/condição social e opção política, a verdade é que, afinal, sempre há gente que, ludibriada por uma condição social aparente (“sou empresário”) engrena nas doutrinas hiper-neoliberais de uma cassete que lhes foi impingida por um PREC ao contrário (como disse Pacheco Pereira no artigo anteriormente aqui postado). Faltou-me perguntar ao tal jovem “empresário agrícola” (dantes dizia-se “lavrador”, mas agora “empresário agrícola” soa melhor), dizia, que me faltou perguntar-lhe se recebeu algum apoio do IFADAP, IAPMEI, ou de programas comunitários (LEADER, PRODER, etc.) para o seu investimento. É evidente que eu, parasita social (porque funcionário público) até sou favorável a esse tipo de apoios, para fomento da produção. Mas, quem repete a cassete neoliberal anti-Estado social, em consciência, deveria rejeitar qualquer apoio desse tipo. Não contestamos, obviamente, esse estímulo gerador de “retorno” económico, por parte do Estado (estrutura representativa de todos nós, que tem também por missão potenciar o desenvolvimento económico, o que mais justifica a sua existência e não o seu aniquilamento, como parecem visar os teóricos neoliberais). Mas, para além dessa função, o Estado tem outras que aos privados não interessam, porque não geram o tal “retorno” financeiro desejado, como sejam, por exemplo, a da Cultura “latu sensu”, ou a promoção da prática desportiva (que não o desporto de massas que consegue ser auto-sustentável e constitui grande negócio, como se sabe), para não falar nas funções sociais de assistência, como sejam a saúde ou a protecção social de pessoas que trabalharam toda uma vida e, no final, não são lixo, ou inúteis a abater. E para não falar, também, na igualdade de oportunidades na Educação, pois de outro modo só os filhos dos grandes senhores (com dinheiro para altos colégios)poderão continuar a replicar o seu estatuto de casta dominante, bloqueando toda e qualquer possibilidade de igualdade social e de escolha dos melhores, por mérito e não por mais possibilidades económicas e privilégio de casta.
O pecado capital do Capitalismo é a promoção de um anti-valor, a Competição, com total desprezo pelos valores da Solidariedade humana, que, no limite, procurará substituir pela caridadezinha. Assim, o Capitalismo, é o resultado económico-social e político da afirmação do gene predador e do instinto mais primário que vem ainda das fases primevas da savana africana. É a doutrina do “homo homini lupus” de que falavam os teóricos socialistas do século XIX. Podemos dizer que o primeiro indício de humanidade ocorre no momento luminoso em que o primeiro antepassado partilhou o seu alimento com o seu semelhante, o confortou e o ajudou no seu sofrimento, rompendo com o individualismo natural e animalesco da competição ou do egoísmo.

O Humanismo evoluiu depois para além da materialidade do alimento e das coisas, e alçou-se no sentido de uma evolução espiritual, superando a mera “techné”. A Civilização é o somatório de tudo isso, da matéria e de espírito, e surge como corolário de um processo que teve no centro, para bem e para mal, o Estado, que é o poder organizado em função dos governados e elemento coordenador das sociedades humanas. E o Estado sempre existiu desde o Egipto faraónico passando por toda a Antiguidade oriental e clássica, reinos medievais ou repúblicas contemporâneas. Ora, desmantelar uma tal estrutura, em nome de uma "modernidade" económica de resultado duvidoso, arrastará necessariamente a uma regressão civilizacional. Parece ser o que pretende esta “Revolução” neoliberal, sob a batuta de criaturas sem nome e sem rosto, que se escondem atrás dos deuses Mercados, e encontra agentes servis nos partidos do Sistema. A partir de onde, a coberto de crises provocadas, debitam a sua cassete que chega até a encontrar eco junto de incautos adeptos aqui ao nível da aldeia real/local que nós conhecemos. Ontem conheci um desses, fazendo-me lembrar os incautos de outros tempos – que, pelos vistos, as cassetes não são exclusivas de um dado lado.

M. Giesta