São estes tempos férteis para a esterilidade.
São tempos em que, metaforicamente falando, se
fuzilam uns aos outros e todos acabam por sobreviver.
Na política, por exemplo, o milagre da ressurreição
já se banalizou.
Nestes tempos, até os milagres já não surpreendem.
Vivemos no tempo das matrioskas – de imagem em
imagem, terminando em imagem minúscula que chega até nós, ao interior algures a
nordeste.
Vivemos no tempo em que criaturas vão à missa
pedindo a Deus perdão pelos seus pecados, mas com a condição de Deus não
perdoar os pecados dos outros.
Vivemos no tempo em que a lealdade não passa de uma
abstração que nem uma loja de chinês se arrisca a comprar.
A lealdade não compensa.
Vivemos no tempo dos “miguelistas” (Relvas, por
extensão, não vão os monárquicos desembainhar o sabre), espertos, de pé ligeiro
que abusam do clã e mentem à tribo.
Vivemos no tempo em que a ética se esconde num bolso
roto e a Moral não passa de uma estátua a quem vendaram os olhos.
Vivemos no tempo em que a res publica (o serviço cívico) em que é estabelecido que servir é
servir-se.
E aí estão eles preparados para o ludíbrio,
anunciando o pensamento de Eduardo Lourenço quando não atingem sequer a “profundidade”
das letras de Tony Carreira.
São melífluos mas ignaros, submissos mas desleais,
bajuladores mas ingratos.
Vivemos no tempo em que se rompe o fio ténue que
separa o tráfico de influências da corrupção.
Em linguagem encriptada estabelecem compromissos que
depois rejeitam, avançam com promessas que sabem não cumprir. E no segredo da
sua falta de consciência vão elaborando teias que podem seduzir mas acabam
sempre por prender.
São as sereias de Ulisses.
Aprendizes de feiticeiro não fizeram o trabalho de
casa, leram em diagonal o livro de S. Cipriano e nunca ouviram falar de
Maquiavel. E o Mestre Feiticeiro congratulou-se pela sua incompetência.
Indignados e “resignados”, encostamo-nos ao pórtico
e, entre a dúvida à beira da descrença, vejamos este tempo, neste espaço não
mar, não rio mas charco, como o nosso tempo, não o que sonhámos mas aquele a
que estamos condenados.
Marco Aurélio.