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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A mão criminosa da "indústria dos fogos"

Finalmente apareceu alguém, entre os chamados "opinion makers", que disse o que andamos a dizer por aqui há muito tempo:

José Gomes Ferreira diz que as pessoas que ateiam fogo nas florestas sabem "estudar os dias e o vento para arder o máximo possível". Em entrevista no Jornal da Noite, o diretor-adjunto de Informação da SIC, fala na importância de haver uma auditoria para tentar perceber o porquê de haver tantas ignições e saber se há alguém que ganhe com esta vaga de incêndios. (in SIC Notícias, 2017.10.18)

Ver aqui: http://sicnoticias.sapo.pt/opiniao/2017-10-18-Quem-faz-isto-sabe-estudar-os-dias-e-o-vento-para-arder-o-maximo-possivel

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A morte antecipada da aldeia (real)...

Foto de Adriano Miranda/Público 

Já rios de tinta correram sobre o tema dos incêndios, e, como tal, tudo o que mais se possa acrescentar é chover no molhado. Mas, das várias coisas que lemos, e porque este blogue tem por título o trocadilho entre o "aqui d'el rei" e o "aqui d'aldeia", em que se subentende o "quem nos acode?", se bem que atiremos para a dita "aldeia global", é sempre a "aldeia real" que nos serve de norte, ainda que muitas vezes nesse conceito envolvamos a Tugalândia, país imaginário habitado pelos Tugas.

E, comovendo-nos como Marcelo sobre a tragédia, a pergunta que mais nos perturbou foi feita por alguém sofrido, algures perto de Vouzela, reproduzida numa reportagem da jornalista Natália Faria, de que se fez eco a tribuna neoliberal que dá por nome de "Observador", e que foi esta:  “Depois disto, o que é que nos segura cá?”

Com a devida vénia, transcrevemos o resto:

«Em aldeias há muito ameaçadas pelo despovoamento galopante, os mortos confirmados estavam todos ao pé da porta de Maria de Lurdes, no lugar de Vila Nova. “Sabíamos que as pessoas estavam lá, mas não imagina o que isto foi, com fogo por todo o lado. Ninguém conseguiu lá ir. Às tantas, dei por mim a pensar uma coisa que até me custou: ‘Já devem estar mortos.’ E mortos estavam, coitadinhos.” Quando via as notícias de Pedrógão, Maria de Lurdes, que tem nos vizinhos a família que, solteira e sem filhos, nunca teve, costumava benzer-se: “Nós aqui estamos no céu.” Afinal, não. “É um inferno como os outros. Depois disto, o que é que nos segura cá?”»

Sim, é isso. O que é que ainda nos segura cá? Remam contra a maré, últimos moicanos resistentes, cercados e avassalados pela "civilização" global, num tempo e lugar onde se tornou contraproducente produzir o quer que seja, pois que a concorrência da agricultura industrializada de porcarias feitas à pressão, desde batatas transgénicas aos pitos de aviário cheios de nitrofuranos e hormonas que decerto têm amaricado as sociedades urbanóides, e, por fim, isto!!

E agora esperem só pelo que vem por aí... Quando estes últimos resistentes tiverem desistido, a vegetar num lar qualquer, os filhos e netos, perdidos algures na cidade ou na estranja, vão em breve receber o fatídico telefonema dos agentes dos oligopólios que vão começar a comprar a terra queimada por tuta e meia. Segue-se o emparcelamento, virão potentes máquinas que vão escalavrar todos os solos milenares, e, seguindo projectos bem delineados em gabinetes de silvicultores altamente especializados e aconselhados por peritos em incêndios florestais, começarão sistematicamente o plantio da nova floresta neoliberal, a mata que não arde, altamente produtiva, com espécies de crescimento rápido, para pasta de papel e mobiliário do Ikea, tudo controlado por computador a partir da Suécia, ou da China, ou de outro ponto qualquer da aldeia global... - Claro que terão por cá os seus agentes locais, como aquele sr. ministro que se queixava, há muitos anos, de estar a perder dinheiro no governo (era um alto quadro da portucel), mas que de lá o não deixaram sair enquanto não produziu, durante mais de 10 anos, uma série de legislação para acobertar a eucaliptação da Tugalândia.... Ou o outro das negociatas dos chaparros, que decerto se perfila para ser ministro de agricultura e florestas num futuro governo pós-geringonça... para além da sua querida líder, que igualmente favoreceu a eucaliptação na sua passagem também pelo ministério da agricultura... Por isso, as suas moções de censura são lágrimas de crocodilos ávidos de voltar aos postos de controlo das centrais de distribuição de apoios a esses grandes oligopólios que os patrocinam e de que são agentes e testas de ferro.

Sim, a morte da aldeia real é também isto: a morte de um velho mundo moribundo patente nos olhos do homem da fotografia captada pelo repórter urbano. Espécie mais em vias de extinção que o desaparecido lince da Malcata. Com ele morre um passado milenar, neolítico, de gente com valor e valores agarrada ao seu rincão sagrado. Vem um novo mundo de criaturas sem alma e sem rosto, dominando extensos feudos decerto guardados por guardas armados, talvez netos destes homens, que se irão tornar servos deste miserável sistema que suspeito por detrás desta política de terra queimada. Sim, essa nova floresta capitalista não vai arder, não. Vigiada permanentemente por satélite e por drones e patrulhada por guardas privados, ninguém ouse pôr um pé nela. E, nesse dia, os pirómanos receberão o seu emprego, ou na patrulha de vigilância, ou nas equipas de abate ou serração.

Preparem-se. Vem aí a nova floresta neoliberal, asséptica,  a mata que não arde, altamente produtiva. O pinhal "nacional" desde D. Dinis, já era, tal como o pinhal do ti António, do ti Manel, ou do Ti Zé da aldeia real... Acabou. É preciso "modernizar a nossa floresta", vai ser o mote. E o papalvo come e aplaude.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Como vai o grande negócio de Verão e... de Outono!

Dizem que ontem foi "o pior dia do ano" da "época dos incêndios-2017" - ver aqui:

http://observador.pt/2017/10/16/tudo-o-que-se-sabe-sobre-o-pior-dia-de-incendios-do-ano/

Já o dissemos e escrevemos diversas vezes: os incêndios florestais (que agora alastram também para casas e povoados), é o grande negócio de Verão - ver aqui: https://aquidaldeia.blogspot.pt/2016/08/ainda-sobre-os-fogos-de-verao-e-porque.html

E, como este ano o verão se prolongou, continua o negócio, já o Outono vai alto. Digamos que foi um "bom ano" para os negociantes do sector.

Cenários dantescos, milhares de hectares de terra queimada, casas, carros, pessoas e animais mortos, carbonizados. De vez em quando apanha-se um pirómano que, uma vez identificado, é posto em liberdade, quando muito a aguardar julgamento, enquanto trata (ou alguém por ele) do devido certificado psiquiátrico.

Décadas e décadas de um país (será?) a arder... E, como disse o sr. primeiro ministro, habituem-se, porque isto vai continuar. Pois, nem Sirespes, nem Sirespas, tudo pago chorudamente para coisa nenhuma. Sim, "isso" foi apenas mais um dos muitos e chorudos negócios que gravitam em torno dos "fogos"... Claro que isto nunca acabará, porque num sistema iníquo que é o do capitalismo selvagem, a palavra central de tudo isto é: N E G Ó C I O !!!... entenderam?? dito em inglês: B U S I N E S S !!!- já que é dos mundos anglo-saxónicos, com o expoente máximo nos EUA's, que tal sistema emana.

Assim, do mesmo modo que inventaram a informática, logo a seguir inventaram os vírus informáticos... e, os mesmos que inventaram os vírus informáticos, logo a seguir inventaram os anti-vírus informáticos... E em relação às doenças, quantas não terão sido propagadas para depois se venderem os "remédios"? Tal como me lembra de ouvir aos velhos que, noutros tempos, passavam aviões a deitar do ar escaravelhos da batata, para depois se vender o DDT...

E o problema está mesmo nos DDT's, agora com outro significado, como bem o sabe um famoso banqueiro, agora em palpos de aranha e mó de baixo, valha-nos o sistema judicial.

Pelo que, esperemos, logo que o dito sistema judicial consiga ganhar a guerra contra o sistema corrupto-democrático que dá cobertura ao (aliás, é eleito pelo) sistema corruptor-económico (=capitalismo), resta-nos a esperança de que se comece a esmiuçar o que está por detrás deste grande negócio de verão (e outono). Dos pulhíticos não há nada a esperar. São apenas os que compram os submarinos e os "meios aéreos" que os agentes do capitalismo lhes metem pelos olhos a dentro, em luzidos cardápios, para os adquirirem com o nosso dinheiro. - Estão a ver? tantos fogos... quantos aviõezinhos têm? e helicópteros? pois, como se vê, não chegam... têm que alugar mais... ou comprar mais... Quando é que é a reunião com o/a sr(ª). ministro? - ok, depois levamos o catálogo com os novos modelos... Ah, e também podemos conversar sobre o novo dispositivo de detecção remota de fogos - último modelo - e substituir o sistema obsoleto do Siresp...

- É tudo uma questão de se estabelecer a correlação entre fogos e vendas e certamente as "escutas" confirmariam as aquisições, o quem vende a quem, e o quem manda fazer o "trabalhinho" ao pirómano coitadinho que é maluquinho...

Por alguma razão não são promulgadas leis draconianas, tipo pena máxima para pirómanos, a menos que "cantassem" quem são os (co)mandantes... E por alguma razão não se investe numa efectiva política de prevenção, em vez de se alimentar a indústria do apaga-fogos.

Bem, decerto haverá ainda uma outra explicação, a qual vamos ter de esperar para ver. Ou seja, veremos se agora não se vai suceder um emparcelamento da propriedade rústica nas mãos de grandes oligopólios florestais e agrícolas (inscrevendo-se esta política de terra queimada na eliminação do que resta do tradicional minifúndio multissecular) e, aí sim, os novos senhores tratarão de cuidar bem das sua novas matas celulósicas ou afins, talvez até com guardas armados a patrulhar as novas florestas privadas (nova forma de emprego para os seus antigos pirómanos)...

É-me cada vez mais estranho este mundo em que vivemos.
Decididamente, o meu reino não é deste (i)mundo.

domingo, 23 de julho de 2017

«É a tragédia, o drama, a dor, o horror.... aqui em directo!» - jornalismo à Artur Aldrabã

Fez escola, esse jornalismo à Artur Aldrabã, directamente de Omã... (dizendo estar no Koweit...)...

Foi a "escola" das SIC's, das TVI's, das ditas "televisões independentes", que tanto vendiam sabonetes como presidentes da república, tudo dependia do "share"...

Mas não só televisões, a pasquinada, decalcando os tablóides ingleses, nessses loucos anos 90 do PREC da (in)comunicação social, fez o que podia para afirmar esse "novo jornalismo", de vanguarda, que fabricava heróis e vilões, mandava abaixo secretários de Estado e ministros, e parava barragens por causa de umas rupestrices...

Mas a "fauna" foi sendo progressivamente domesticada, tornando-se, em alguns casos, "cães de guarda" (a expressão é de Serge Halimi) dos regimes que iam fabricando. Que lhes resta(va)? uns casos de polícia, tipo "O Fugitivo", com efeito novela, com Palitos e Pedros Dias nos papéis principais... Mas, caçados os tipos, acaba(va) o filão.

Assim sendo, filão inesgotável é sempre o dos fogos de verão (é como a época de praia, há todos os anos). E dá sempre uns belos "bonecos", como eles dizem lá na gíria deles... E com algumas nuances, vem sempre aquele tom apocalíptico à A. Aldraban, granda Mestre, que fez escola...

Mais uma vez, não só nas TV's. Do outro dia, vi numa revisteca um artigo sobre o tema, em que uma pindérica jornalisteca (pela pinta devia ser da Lísbia), até se vestiu a preceito com uma espécie de camuflado (desses a imitar o da tropa), para ir para o "teatro das operações" - E lá estava a pindérica, assim vestida, para a fotografia, com o cenário das chamas por trás... Mas, NÃO TERÁ ESTA GENTE A NOÇÃO DO RIDÍCULO??? - Ainda pensei em mandar por aqui umas bocas das minhas, cá na praça desta virtual Aldeia, ao menos para desopilar os fígados, mas achei q não valia a pena. Era gastar cera com ruins defuntos...

Mas, ao receber, através da mão de um amigo a prosa que se segue, o qual, por sua vez também a recebeu de outro amigo, enfim, e porque isto não sai nos jornais e nas televisões deles, aqui vos fica:


Este texto (de autor que desconheço) foi-me remetido por um amigo e reflecte bem o que eu penso.

Pacheco Pereira (na "Quadratura do Círculo" de há 2 semanas) considerou que estas "reportagens" são uma masturbação da desgraça


As vítimas dos incêndios e da televisão... VERGONHOSO !

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.
Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.
Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.
O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”
Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.
Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.
Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dosdrones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance,“wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra. 


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ainda sobre os fogos de Verão... e porque é Verão!...

Os bitaiteiros da nossa praça já disseram para aí munta coija sobre isso dos FOGOS... Por isso, não querendo ser mais um, abstive-me de mandar mais lavercas sobre o assunto.

Mas, entretanto, encontrei por aí na rede umas bocas de um amigo, a propósito de um artigo da jornalista Helena Matos, este: http://observador.pt/opiniao/fogo-de-vista/   

- publicado no pasquim virtual neo-liberal "Observador", e achei por bem compartir connvosco, pois é exactamente o que penso:

«Pois é, querida Helena Matos, será exactamente nos "meios" que anda o busílis da questão... 
Desde os anos 80 que começamos a ver a progressão desses meios: lembro-me de um improvisado heliporto, em frente do quartel dos bombeiros da terrinha, em que, na extremidade traseira, junto ao rotor vertical, havia uma bandeirinha... Qual? qual?... Creio q ainda se chamava República Federal da Alemanha... Quem fretava os ainda hoje denominados "meios aéreos"? Diziam q era um negócio que chegava a ministros e secretários de Estado... Seria ainda a' conta da tal malinha do Rui Mateus (o tal q foi a' horta, por conta de quem ficou a' porta)? Seria por conta já dos famosos chubchidios q corriam então a' pala da entrada na UE, e q estamos hoje a pagar? Bem, os tais calicopteros entretanto desapareceram, mas o negócio dos aviões não parou... Assim como o negócio dos tanques, camiões-cisterna, mangueiras, capacetes, uniformes, etc., etc.... Até a' situação - que esta ouvi eu a um bombeiro, em tom recriminatório, a um senhor q teve o fogo perto da sua casa de campo: "o sr. sabe q tem de ter o mato limpo 50 metros em redor da casa?" Ao q a pessoa respondeu q costumava ter, mas o caseiro reformou-se, e não sabia a quem encomendar esse trabalho, visto q vivia no Porto... "- Mas há cá quem faça isso!" Quem? - perguntou o homem. "- Fale com o sr. X". - E onde e' q o encontro? "- Costuma estar pelo nosso quartel." Poixxx...... É algo parecido com os vírus e os anti-virus informáticos... A necessidade gera a resposta à necessidade - lei da satisfação das necessidades. Estuda-se em Economia. E assim, depois do "fogo pastor" de antanho, ou da locomotiva a vapor, ou dos reaças, de que fala a Helena Matos, ou ainda o "fogo pirómano", ou do madeireiro, ou da celulose, etc., há a considerar este tipo de fogo neoliberal... Business!... Business.... Tudo é business, neste sistema. De certeza q alguém lucra, à custa de quem paga os custos milionários desta indústria do apaga-fogos... Ah, e falando de Economia, já o Keynes dizia que a crise americana dos anos 30 se resolvia pondo metade dos desempregados a abrir buracos, e a outra metade a tapá-los, pagando-se alguma coisa, a uns e outros, por isso. Punha-se assim o capital de novo a circular. Podia-se adaptar o princípio, pondo-se metade dos portugueses desempregados a chegar fogo, e a outra metade a apagá-lo, pois sempre seria uma repartição mais justa, do que irem os milhões só para alguns. Quando já não houvesse nada mais para arder, acabava-se o problema. Ah, e agora sim, metade a abrir buracos, outros a por árvores e a tapar as covas (com as televisões a filmar tudo, sobretudo os fogos, que dão sempre umas excelentes imagens). Quando as árvores crescessem, voltava-se a queimar e a apagar e a replantar, e assim sucessivamente, pois no capitalismo o negócio não pode parar....
Claro que só ironicamente se pode aventar tal coisa. Claro que seria preferível pôr os desempregados, os bombeiros, a pouca tropa que ainda resta, os voluntários (sobretudo os jovens), pessoal dos municípios e juntas de freguesia, além dos proprietários, a trabalhar na prevenção: A) limpeza das matas; B) acções de sensibilização e consciencialização. Claro q isto é uma utopia, e estragava o tal negócio chorudo de uns poucos... Só assim se explica que tantos anos volvidos ninguém ponha cobro a este "negócio de verão", e que quando se apanha algum miserável "pirómano", em pouco tempo está cá fora, se é que tão pouco vai dentro, com o atestado de inimputabilidade apresentado a tempos por qualquer advogado ratolas que alguém misteriosamente pagou...
Enfim, é verão. Uns vendem gelados na praia, outros andam nos fogos. Um negócio como outro qualquer, diz o tuga, encolhendo os ombros no seu típico jeito do "não é nada comigo". Sim, porque isso de consciência ambiental são manias de países ricos. Deixem "trabalhar" quem "trabalha".... »