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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

PARTIDOCRACIA - o verdadeiro cancro na "democracia" tuga


Sempre certeiro, aqui afixamos, na praça cá da Aldeia, mais este escrito de Paulo de Morais - sem comentários: 

A partidocracia destrói a democracia

Paulo de Morais
(Presidente da Frente Cívica)

Criados para representar as diferentes visões da sociedade, ao serviço do eleitorado, os partidos políticos estão em fase acelerada de degenerescência. São habitados por elites políticas que esqueceram os cidadãos e tudo fazem agora para manter os privilégios de que se foram apropriando. São os principais responsáveis pela abstenção, pelo desinteresse crónico pela política e pela crise da democracia.

O principal objectivo dos maiores partidos portugueses é, na verdade, manterem-se na esfera do poder, partilhar negócios de Estado com os grupos económicos de que são instrumento e garantir emprego aos muitos milhares de apaniguados, os militantes partidários e seus familiares.

 O seu primeiro desígnio é eliminar a concorrência. Instalados no poder, os partidos do sistema (PSD, PS, CDS, Bloco e PC) garantem o exclusivo das candidaturas ao Parlamento, para que personalidades independentes não possam ter assento na Assembleia da República. Não permitem a entrada no seu feudo parlamentar de independentes, obstaculizam o acesso a novos partidos. Para beneficiar os maiores, permitem-se violar o princípio da proporcionalidade, que a Constituição exige: em 2015, um deputado do PSD ou do PS foi eleito com 20 mil votos, mas já o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista necessitam para a sua eleição cerca de 30 mil votos. Além do mais, impedem que outras forças políticas tenham acesso ao Parlamento, apesar de algumas delas terem recebido muitos mais votos do que os 20 mil que elegem cada um deles.

Os partidos nem sequer cumprem a lei, em múltiplos aspectos, o mais escandaloso dos quais é o desrespeito pela legislação de financiamento político. São recorrentemente condenados, multados pelo Tribunal Constitucional; mas sem quaisquer consequências, porque o Estado sempre permite a prescrição, no tempo, das sanções que aplica. Estes partidos garantem ainda, apenas para si próprios, financiamentos de Estado permanentes. Usufruem de subsídios públicos de todo o tipo, com os quais mantêm uma máquina de propaganda, ilegítima fora de períodos eleitorais. Só em Portugal há, em permanência, propaganda partidária nas ruas, uma forma de lavagem cerebral sistemática. Utilizam até o domínio público como propriedade sua: são aos milhares os pequenos cartazes ilegais, degradados, apensos a candeeiros públicos, de propaganda ao Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. Este lixo urbano deveria ser removido pelas câmaras, o que não acontece, porque os partidos estão acima da lei.

Agarrados como lapas ao Estado, os dirigentes partidários distribuem benesses e privilégios pelas empresas que os financiam e para as quais vão mais tarde como assalariados. Foi o que sucedeu com as ruinosas parcerias público-privadas rodoviárias, cujo maior agente foi a MotaEngil, que acabou a albergar quase todos os ex-governantes do sector das obras públicas: de Jorge Coelho a Seixas da Costa, do PS, a Valente de Oliveira e Ferreira do Amaral, do PSD. O mesmo fenómeno de promiscuidade entre política e negócios marcou a onda de privatizações ao desbarato, manipuladas por políticos que hoje recebem tenças milionárias nas empresas que os próprios partidos privatizaram. O socialista Luís Amado preside à privatizada EDP, assessorado pelo social-democrata António Mexia e pela centrista Celeste Cardona. Para presidir à privatizada ANA, foi designado o ex-ministro José Luís Arnaut. A lista dos políticos de negócios é interminável, neste infernal sistema de portas giratórias que coloca o Estado ao serviço de interesses privados.

Além de negócios e rendas milionárias, os partidos garantem a sobrevivência económica dos seus apoiantes através da atribuição de muitos milhares de empregos. Usam, para este fim, a administração central, as autarquias, as empresas municipais, os institutos públicos. Transformaram-se mesmo na maior agência de emprego do país. Assim, os partidos tudo fazem para manter o statu quo: controlam o sistema eleitoral, impedem a apresentação de alternativas, violam leis, utilizam recursos públicos em seu proveito, manipulam a opinião pública, enxameiam as televisões com comentadores facciosos, censuram todo o discurso contraditório. Ameaçados pelo desmoronar das bases democráticas, preferem apelidar de populista qualquer alvo em movimento, do que realmente regenerar a sua missão. Os partidos, que deveriam ser a essência da democracia, estão a aniquilá-la.

in Público, 2019.01.17



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Tachocracia, ou o mundo dos "boys"...

Há muito sabemos que "democracia" é a ditadura das maiorias. Só custa endrominar uns papalvos (gestão das expectativas dos ditos) para "chegar lá". Depois, porque "fomos escolhidos pelo povo", há que alimentar o "polvo". Aí vem a factura. O "apoiozinho" tem os seus custos. Há que promover "os nossos". Os "nossos" boys"/"girls", irmãos, primos, sobrinhos, parentes, afilhados, amigos, amigos de amigos, mas como não há merenda para tanta rapaziada que andou em campanhas e caravanas (por nós, claro!), há que se ser selectivo. Primeiro os que rendem mais votos e os "filhos de algo", os da nomenklatura social que se torna reinante... Por vezes, vai-se aquecendo o tacho na base de uns "estágios" temporários, na base do provisório que depois se passa a definitivo, sobretudo se ninguém diz nada. Claro que não há para todos, por isso depois faz-se a selecção com base nos tais critérios.
Seleccionar e recrutar com base no que é investimento necessário, de acordo com a transparência e mérito de cada um, sem se olhar a colorações ou filiações, neste tipo de "democracia" tuga, é uma utopia. Acreditar nisso, é o mesmo que acreditar no Pai Natal...

Andamos fartos de saber disto, mas...
... mas quando isto é dito com base em dados e referências, ganha outros foros. Aqui vos fica:


Cartão partidário? A garantia de uma carreira de futuro
25 Maio 2017



  1. Cristas foi a ministra que nomeou mais pessoal partidário
  2. PSD: CRESAP não quis impedir ligações dos cargos aos partidos
  3. Bilhim não “augura coisa boa” à CRESAP porque Governo “deixa andar”
  4. Governo diz que está a avaliar a eficácia da CRESAP
  5. Os mais escolhidos? Políticos. E homens
Se o objetivo era diminuir a influência dos partidos no Estado, a Comissão de Recrutamento e Seleção da Administração Pública não conseguiu evitar o favorecimento aos dirigentes da cor do Governo. Um estudo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas demonstra que esta entidade independente não conseguiu travar a tendência histórica de colonização do Estado pelos aparelhos partidários. Uma tese sobre o mérito na administração pública, a que o Observador teve acesso — e que está à espera de publicação na revista científica daquela faculdade — demonstra que possuir cartão partidário aumenta de forma exponencial as probabilidades de nomeação. Metade dos militantes do PSD e do CDS que chegaram às short-lists dos concursos daquela comissão foram nomeados durante o Governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas.
Na passada legislatura, dos 62 militantes do CDS cujos nomes chegaram à mesa dos ministros como tendo currículo adequado, 36 foram escolhidos para os cargos a que se propunham nos concursos da Comissão de Recrutamento e Seleção da Administração Pública (CRESAP). Isto significa que foram nomeados mais de metade dos centristas a chegar às short-lists finais, entregues aos governantes com os três nomes mais bem colocados após os concursos. A percentagem de 58% de militantes do CDS nomeados é mesmo superior à dos filiados no PSD, o maior partido da coligação do Governo. No caso dos sociais-democratas, dos 119 que passaram às short-lists, 58 ficaram com os lugares, o que representa a nomeação de 48,7% dos candidatos laranja que chegaram à fase final dos concursos.

A diferença é enorme quando estes valores são comparados com os dos militantes do PS que nos concursos passaram à finalíssima. Apenas 19 dos 102 nomes socialistas que tinham um currículo considerado adequado pela CRESAP — e que também foram aprovados na fase da entrevista — acabaram por ser nomeados. Ou seja, só 18,6% dos filiados no PS que chegaram às short-lists foram selecionados como dirigentes na administração pública pelo Governo PSD/CDS.

A vantagem de estar, como candidato, do lado do poder, percebe-se ainda melhor quando se analisam os resultados dos concursos a que se apresentavam independentes. Foram nomeadas 139 pessoas sem militância identificada pelo estudo, num universo de 468 independentes que chegaram às short-lists: a percentagem é de 27,9% de independentes designados. O número absoluto é mais elevado que o do pessoal partidário, mas os independentes nem chegam a ser um terço dos escolhidos em relação aos que concorreram.

O estudo, intitulado “Mérito e administração pública: a CRESAP e a escolha dos altos dirigentes”, também indica a existência de uma “discriminação” em relação às mulheres e conclui que “existe uma ampla discricionariedade na nomeação por parte dos responsáveis governamentais”. Trata-se de uma tese de licenciatura de Carina Correia, orientada pelo professor Joaquim Croca Caeiro, no âmbito do curso de Administração Pública. Segundo a autora do trabalho, “é no momento da nomeação que os membros do Governo, usando do seu poder 
discricionário, promovem a nomeação dos candidatos que integram a sua cor política”. 

Isto mostra que o modelo de seleção dos dirigentes da administração pública ainda tem “algumas falhas”: a CRESAP envia uma short-list com três nomes ao ministro que deve fazer a nomeação e que, em grande parte dos casos, escolhe aquele que é “da sua cor política”, com predomínio para o género masculino. Joaquim Croca Caeiro foi também ele nomeado vogal do Conselho Diretivo do Instituto da Segurança Social e era na época militante do PSD. Mais tarde sairia do PSD, mas na altura foi um dos nomeados com ligação partidária.

Este trabalho confirma a tendência identificada pela investigação do Observador publicada esta segunda-feira, sobre a partidarização dos dirigentes da Segurança Social e do Instituto do Emprego e da Segurança Social: há uma colonização do Estado e uma alternância quase perfeita de militantes do PS, PSD e CDS nas estruturas de topo e intermédias.

(continua)

Vale a pena ler o resto, aqui, no "insuspeito" Observador:

http://observador.pt/especiais/cartao-partidario-a-garantia-de-uma-carreira-de-futuro/