segunda-feira, 24 de julho de 2017

E porque estamos em tempo de "vacances" (com milhares de turistas - dizem - a chegar-nos de todo o lado)...  tomem lá. aqui têm:

Turismo rural 


Trata-se de um desporto nacional, a que antes se chamava:  "ir à terra".
A diferença é que se fores à tua terra, vais de borla e, se fizeres turismo rural, vais a uma terra que não é a tua e pagas uma pipa de massa.
Para fazer turismo rural não serve qualquer terra. Tem de ser uma terra "com encanto".
E o que é uma terra "com encanto"?
Obviamente, é uma terra que está num guia de terras "com encanto"…  Está-se mesmo a ver:  A estas terras chega-se, normalmente, por uma estrada  municipal, "com encanto", que é uma estrada com tantos buracos e tantas curvas que quando chegas à dita terra estás mortinho por sair do carro.
E, quando entras no café, tentas integrar-te com os vizinhos.
“– Bom dia, compadres! O que é que é típico daqui?...”
E o gajo do café pensa: "– Aqui, o típico é que venham os artolas da cidade ao  fim-de-semana gastar duzentos euros…".
A seguir, ficas instalado numa casa rural ou casa "com encanto", que é uma casa decorada com muitos vasinhos e réstias de alhos penduradas do tecto, que não tem televisão, nem rádio, nem microondas.  Em contrapartida, tem uns cabrões de uns mosquitos que, à noite, fazem mais barulho que uma das antigas bicicletas-a-motor “Famel Zundapp”.
Depois apercebes-te que os da terra vivem numas casas que não têm encanto nenhum, mas têm jacuzzi, parabólica, internet e video-porteiro. A tua casa não tem video-porteiro, mas tem uma chave que pesa quase meio quilo.
Outra vantagem de fazer turismo rural é que podes escolher entre uma casa vazia ou ir viver com os donos da casa.
Fantástico!!!   Vais de férias e, além da tua, ainda tens que aguentar uma família postiça:  Que à noite queres ver o filme, eles os documentários e tu perguntas-te:  "Quem é que manda mais? Eu, que paguei 200 euros ou este senhor que vive aqui?" Ganha ele, que tem um cacete.
Ainda por cima, dizem-te que tens "a possibilidade de te integrares nos trabalhos do campo". O que quer dizer que te acordam às cinco da manhã para ordenhar uma vaca. Não te lixa?!...
É como ires à bomba da gasolina e teres de pôr tu a gasolina ou como ires ao McDonalds e teres tu que arrumar o tabuleiro. Ou seja:  o normal!...
Então, levantas-te às cinco para ordenhar as vacas. E digo eu:  “Porque raio é que é preciso ordenhar as vacas tão cedo? O leite está lá!... Não se podem ordenhar depois do pequeno-almoço?  Eu acho que isto é só para chatear, porque a vaca deve ficar muita contente por a acordarem às cinco da  manhã para um estranho lhe vir mexer nas mamas.”.
A vaca olha para ti como se dissesse: "Ouve lá, ò pacóvio, se queres leite vai ao frigorífico e abre um pacote!"
É que é mesmo só para chatear!!!
Mas o "encanto" definitivo são "as actividades ao ar livre".
Como quando te põem a fazer “a caminhada”, que é aquilo a que normalmente se chama andar, e consiste, exactamente, em por um pé em frente ao outro até não poderes mais, enquanto os da terra vão num jipe com ar condicionado! 
Mas tu, feliz da vida, vais pelo campo, atordoado, tornas-te bucólico e tudo te parece impressionante.
Vês uma vaca e dizes:  "– Ummmmm, que cheirinho a campo!"…
A campo não, a bosta!!!  Mas, isso sim, é a bosta "com encanto".
E tudo, seja o que for, te sabe maravilhosamente:   na mesa pespegam-te dois ovos estrelados com chouriço e tu na cidade não comes estes ovos, nem estes chouriços.
E perguntas ao empregado:  “– Este chouriço é da matança?
E o gajo responde:   “– Quase, porque o gajo do camião da Izidoro ia morrendo ali na curva.”.
De repente, ouves umas badaladas e dizes:   “– Ah! Que paz! Não há nada como o som de um sino!...
E o gajo do café diz-te:  “– É gravado. Não vê o altifalante no campanário?
Nesse momento, perguntas-te se os ruídos das galinhas e dos grilos não estarão num CD: "RuralMix2009", "Os 101 Maiores Êxitos Campestres".  A única coisa de que tens a certeza é que os cabrões dos mosquitos são verdadeiros.  Pareces um “Ferrero Rocher” com varicela!!!
Eu acho que, de segunda a sexta, as pessoas destas terras vivem como toda a gente, mas, ao fim-de-semana, espalham pela estrada uns tipos mascarados de pastores e, quando vêem que se aproxima um carro, avisam os da terra pelo telemóvel: "– Hei, vêm aí os do turismo rural!".  E mudam o cartaz de "Videoclube" pelo de "Tasca", soltam uns cães pelas ruas e sentam à entrada na terra dois avôzinhos a fazer sapatos, que depois tu compras uns que te saem mais caros que uns “Nike”.
Enfim, acho que uma montagem tão grande como esta não pode ser obra de pessoas isoladas.
Tenho a certeza de estão implicadas as autoridades.
Imagino o Presidente da Câmara:
“– Queridos conterrâneos:  este Verão, para aumentar o turismo, vamos importar mais mosquitos do Amazonas, pois que no ano passado tiveram imenso êxito. E quero ver toda a gente com boina, nada de bonés de pala da Marlboro!  E façam o favor de pintar o espaço entre as sobrancelhas, que assim não parecem da província!   E as avós: nada de topless na ribeira, que espantam os mosquitos!...  E só mais uma coisa:  Este ano não é preciso ninguém fazer de maluquinho da terra, que, com os que vêm de fora, já chega!

domingo, 23 de julho de 2017

«É a tragédia, o drama, a dor, o horror.... aqui em directo!» - jornalismo à Artur Aldrabã

Fez escola, esse jornalismo à Artur Aldrabã, directamente de Omã... (dizendo estar no Koweit...)...

Foi a "escola" das SIC's, das TVI's, das ditas "televisões independentes", que tanto vendiam sabonetes como presidentes da república, tudo dependia do "share"...

Mas não só televisões, a pasquinada, decalcando os tablóides ingleses, nessses loucos anos 90 do PREC da (in)comunicação social, fez o que podia para afirmar esse "novo jornalismo", de vanguarda, que fabricava heróis e vilões, mandava abaixo secretários de Estado e ministros, e parava barragens por causa de umas rupestrices...

Mas a "fauna" foi sendo progressivamente domesticada, tornando-se, em alguns casos, "cães de guarda" (a expressão é de Serge Halimi) dos regimes que iam fabricando. Que lhes resta(va)? uns casos de polícia, tipo "O Fugitivo", com efeito novela, com Palitos e Pedros Dias nos papéis principais... Mas, caçados os tipos, acaba(va) o filão.

Assim sendo, filão inesgotável é sempre o dos fogos de verão (é como a época de praia, há todos os anos). E dá sempre uns belos "bonecos", como eles dizem lá na gíria deles... E com algumas nuances, vem sempre aquele tom apocalíptico à A. Aldraban, granda Mestre, que fez escola...

Mais uma vez, não só nas TV's. Do outro dia, vi numa revisteca um artigo sobre o tema, em que uma pindérica jornalisteca (pela pinta devia ser da Lísbia), até se vestiu a preceito com uma espécie de camuflado (desses a imitar o da tropa), para ir para o "teatro das operações" - E lá estava a pindérica, assim vestida, para a fotografia, com o cenário das chamas por trás... Mas, NÃO TERÁ ESTA GENTE A NOÇÃO DO RIDÍCULO??? - Ainda pensei em mandar por aqui umas bocas das minhas, cá na praça desta virtual Aldeia, ao menos para desopilar os fígados, mas achei q não valia a pena. Era gastar cera com ruins defuntos...

Mas, ao receber, através da mão de um amigo a prosa que se segue, o qual, por sua vez também a recebeu de outro amigo, enfim, e porque isto não sai nos jornais e nas televisões deles, aqui vos fica:


Este texto (de autor que desconheço) foi-me remetido por um amigo e reflecte bem o que eu penso.

Pacheco Pereira (na "Quadratura do Círculo" de há 2 semanas) considerou que estas "reportagens" são uma masturbação da desgraça


As vítimas dos incêndios e da televisão... VERGONHOSO !

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.
Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.
Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.
O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”
Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.
Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.
Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dosdrones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance,“wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.