quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ainda sobre a bomba do FMI - Gato escondido com o rabo de fora... - mas havia dúvidas?

Toda a gente sabe que este (des)governo é a peça caseira de uma engrenagem mais vasta que entrou em movimento há muito tempo, com particular aceleração após a queda do Muro de Berlim. A ascensão da China (onde curiosamente o Estado existe - e de que maneira!, provando que o "desenvolvimento" da economia não tem necessariamente de se libertar desse "peso morto" para singrar), dizíamos, a ascensão da China com base numa produção e exportação sem precedentes, deu pretexto aos políticos neo-liberais para imporem a sua famosa agenda de privatizações selvagens, beneficiando-se a si e aos amigos e hipotecando o Futuro da esmagadora maioria dos demais.
Como a nível caseiro não havia coragem de impor tais medidas, muito por culpa de uma Constituição que ainda consagra algumas das tais famosas "conquistas de Abril", havia que pôr em marcha um rolo compressor contra este obstáculo, assim como contra as peias mentais e sociais da sociedade Tuga. Como consegui-lo?  Havia já o pretexto (a grande Crise) para se aplicarem as doses cavalares. Não chegava aumentar os impostos e cortar nos salários (e nessas "benesses", tipo subsídios de férias e 13ºs meses), tudo a coberto da famosa Troika (deixando-nos até saudades do Teixeira dos Bancos e dos socráticos PEC's).  Agora, para estes hiper-neo-liberais, era preciso "REFUNDAR" o Estado, nem que, primeiro, para isso, fosse necessário afundá-lo primeiro - aliás esta parece ser a condição primeira, dentro do princípio da chamada "tábua rasa". Como os partidos da oposição, mormente o parceiro do Centrão, não estiveram pelos ajustes para alterar a Constituição, passaram ao plano B: encomendar "estudos" no mítico lá-fora, para dar ao pessoal o tratamento de choque. Foi assim que surgiu a BOMBA: o tal de famoso relatório do FMI, anunciado recentemente através de... uma fuga de informação. E, para reforçar um pouco mais as imperiosas medidas "necessárias" aí explanadas, veio logo outro a seguir, o da OCDE. É o cerco, para nos encurralar no campo pequeno das opções (deles). O curioso é que vieram logo alguns dos responsáveis políticos - para disfarçar, como a criança traquina que dá o traque na aula e se faz de inocente - quais virgens púdicas, a pôr paninhos quentes sobre a BOMBA. Que aquilo não era vinculativo, que havia coisas que não se podiam aceitar (apesar de outras, a maioria, e o espírito da coisa, ser mais do que certo), enfim, que era preciso ver-se bem. No fundo, a velha estratégia do polícia mau (o FMI) e o polícia bom (nós, o governo). Como se o "polícia mau" não tivesse sido instruido pelo "polícia bom" para nos dar uma valente carga de porrada.
Dúvidas?? - Ver aqui: http://www.noticiasaominuto.com/economia/36896/gaspar-e-portas-orientam-fmi#.UPfla2dlJnA  > de onde se prova que até o Portas "acompanhou" a coisa (como ministro dos negócios estrangeiros).

ADITAMENTO (18.01.2013): http://www.noticiasaominuto.com/politica/37240/o-relat%c3%b3rio-secreto-do-governo-que-inspirou-o-fmi

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O 8 e o 80 - um artigo profético de 1993, quando a procissão ainda não tinha saído do adro...

   No final do ano de 1992, quando já se ouvia falar, pela primeira vez, em "excedentários" da Função Pública, e já estava em marcha acelerada o processo de privatizações, ainda em pleno "cavaquismo", escrevemos um artigo publicado que viria a ser publicado num quinzenário de Bragança, "A Voz do Nordeste", faz agora 20 anos! 
   Nesse artigo, intitulado "O 8  e o 80 ou a morte do Estado?" denunciávamos já o desvario que tem agora o seu auge, 20 anos passados. Aí dizíamos que, depois dos excessos do PREC, em que se pretendia nacionalizar toda a economia, se estava a entrar noutro excesso: o de privatizar toda a economia. E verberávamos esta tendência do Homem de ziguezaguear sempre entre extremos e a sua incapacidade de procurar o justo equilíbrio no princípio do meio-termo, a justa medida dos Gregos antigos (coitados, mal sabiam o que os esperava dois mil e quinhentos anos depois, e nós com eles), ou, como diz o nosso povo: nem tanto ao mar, nem tanto à terra...
   Aí se denunciava também que por detrás da tentativa de defenestrar os funcionários públicos e destruir toda o sector público, estava o virús ávido do Capitalismo, para sugar melhor todo o cidadão que, estupidamente, até batia palmas, no seu ódio ao funcionário público (os que o não eram/são), tidos como uns privilegiados por terem ordenado certo e não fazerem nenhum (era e é o chliché).
   Já nessa altura o sr. Prof. Aníbal, o pai dest'outro Monstro, tinha proclamado que "menos Estado era melhor Estado" - a teoria da omlete sem ovos. É claro que, se há função pública a mais, há que proceder a ajustamentos, mas não é isso que eles querem. Os seguidores das doutrinas neo-liberais, que aqui, através do Prof. Aníbal chegaram em 2ª mão por interposta pessoa da Srª Tatcher, por sua vez seguidora do teórico Von Hayeck (que com Milton Friedman era um dos gurus da chamada "Escola de Chicago"), achavam (e acham) que o Estado mínimo permite que o cidadão pague menos impostos (pois, se não tem de pagar certos serviços públicos), para compensar o pagamento da mais-valia (o lucro) da prestação dos serviços por privados que, também teoricamente, trabalham mais e mais eficientemente, do que os amodorrados funcionários públicos. Ora, o que nos diz a prática? Com tudo o que já foi privatizado, será que os impostos baixaram? - todos sabem que não, antes pelo contrário! E a qualidade dos serviços melhorou? - na maior parte dos casos não se nota diferença, antes bem pelo contrário. E, como se denuncia no documentário aqui já postado (neste blogue) sob título "Catastroika", a privatização, por exemplo, da Energia/Electricidade, na Grécia (como cá) só serviu para vender (no nosso caso aos chineses) o que os cidadãos (através das empresas públicas, como no nosso caso, a EDP, ou, noutros tempos a Hidroeléctrica do Douro e etc.) já tinham pago!! Alguém viu a factura da electricidade baixar? - pelo contrário, preparam-se para mais aumentos, já que o novo patrão chinês não está cá para ajudar ninguém, está é para sugar, e também é preciso pagar aos novos Cristóvãos de Moura e Miguéis de Vasconcelos, que agora se chamam Mexias e quejandos....

Enfim, fica o aviso (para não lhe chamar PROFECIA), através de uma velha lei da física (enunciada pelo grande Isaac Newton): a toda a acção pode corresponder uma reacção igual e em sentido contrário. Do mesmo modo que ao desvario do PREC da 2ª metade dos anos 70 correspondeu uma certa "reacção", pode ser que agora, a este novo PREC ao contrário, corresponda uma nova reacção - ou, diferindo a matriz, se terá que chamar de REVOLUÇÃO....

Aqui ficam os recortes de "A Voz do Nordeste", secção "Diz tu, direi eu", 19.01.1993:

 
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

"Novas Oportunidades" para funcionário público à maneira antiga...

No seguimento do blogue anterior, se o Capitalismo imperante ao menos deixasse espaço às Artes, à Cultura e ao Espectáculo (coisa que sabemos que não deixa), aqui poderia estar uma saída para os funcionários públicos ainda do tempo da velha Remington:

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Está em marcha uma “Solução Final” para a Função Pública – e a ofensiva prossegue!

Para quem não sabe, a “Solução Final” foi a designação oficiosa da política de extermínio de judeus pelo IIIº Reich alemão. Os judeus foram responsabilizados pela derrota da Alemanha na 1ª Grande Guerra e de serem agiotas e sanguessugas da nação, pelo que, com algumas teorias rácicas à mistura, se iniciou um genocídio contra a numerosa comunidade judaica, organizado em fileira: uma vez presos, os judeus (e outros "indesejáveis") eram transportados em comboios de gado para campos de concentração, onde tinham de trabalhar em condições infra-humanas numa espécie de morte lenta, quando esta não era antecipada em câmaras de gás. Para não haver vestígios e para se processar melhor a grande quantidade de cadáveres, construíram-se fornos crematórios. Está tudo explicado nos museus do holocausto e inúmeros filmes e documentários sobre o tema.
Como se sabe, o nazismo foi derrotado e da 2ª Grande Guerra ficaram dois sistemas vencedores:  o bloco socialista/comunista, da Europa de Leste, e o capitalismo ocidental, com os USA como pretenso farol da Liberdade. Os pratos da balança equilibraram-se, com mais bomba ou menos bomba atómica, mais míssil ou menos míssil. Chamaram-lhe “Guerra Fria”. Todavia, após a queda do famoso Muro de Berlim, símbolo dessa era, nos finais dos anos 80, não faltou quem proclamasse o fim da História e novos amanhãs que haveriam cantar. O sistema comunista implodiu (ficaram uns vestígios residuais em Cuba, e, no resto do mapa pintado de vermelho, assistimos a operações de “travesting”:  Angolas, ou mesmo Chinas, neste caso com a tal teoria de um país e 2 sistemas). Em suma, o Capitalismo ganhou e levou a taça. Até aqui tudo bem (ou tudo mal, como veremos).
Só que quando se cai no monismo, fatalmente, parece que fatalmente, vem ao de cima o tal gene nazi  escondido nos sistemas, como nos indivíduos. E como prova disso está hoje a "judaização" dos funcionários públicos, acusados de serem os culpados da crise, os parasitas que nada fazem e que têm de ser exterminados para se chegar a um novo horizonte de felicidade dos Povos, sob a bandeira da tal “Liberdade”, o Liberalismo, na sua nova formulação neo-liberal. O objectivo é a destruição do Estado tal como o conhecemos, e há que começar pelos seus agentes, para melhor se poder depois sugar o cidadão através do empresarismo selvagem. É um desvario, pois é, mas está a passar-se. E os outros, os que não são funcionários públicos, até aplaudem, há que cilindrar esses malandros (pois que eles são uns privilegiados e se a mim não me foi dado entrar para a “casta”, ainda bem que os exteminam – dá votos e rende milhões!....)
O mote está dado há muito tempo, fora da Tugalândia e, por cá, começou com a célebre teoria do sr. Prof. Aníbal, há muitos anos, era ele ainda primeiro ministro: “quanto menos Estado, melhor Estado…” – Apesar disso, muitos paus-de-bandeira das campanhas eleitorais continuaram ainda a engrossar o sistema (na base, no meio e por cima, nas cúpulas), quando havia dinheiros da UE para distribuir e assim, os partidos do centrão poderem rodar no poder, ajudando à longevidade política de alguns, como o dito sr. Prof. Aníbal. Todavia, o tema da redução da Função Pública continuou a atravessar os governos, até ao socratismo. Mas, o que era para ser um mero ajustamento, foi evoluindo para o conceito de uma política de extermínio. Como faltava coragem para desencadear a Ofensiva total, agora, a pretexto da grande Crise (e tudo leva a crer que foi forjada tendo em vista este grande objectivo, além de outros), os novos papalvos que estão no (des)governo, para se respaldarem em “demonstrações” técnico-científicas incontestáveis, eis que as vão encomendando no mítico lá-fora: primeiro mandaram vir a Troika; depois encomendaram a BOMBA do FMI, de há dias…. Agora faltava mais um “estudo” da OCDE. Ei-lo que foi anunciado HOJE (2013.01.15), com mais do mesmo, ou seja, repetindo, até à exaustão o mesmo, tipo lavagem ao cérebro – Goebels também dizia que uma mentira repetida 30 vezes transformava-se numa verdade – a famosa ideia de que há funcionários públicos a mais. Sim, mesmo no dia em que houver um só, até esse estará a mais… E concomitantemente, para melhor asfixia (qual câmara de gás), reduz-se ao subsídio de desemprego, até não haver subsídio nenhum: nem de férias, nem de natal, nem de natalidade, nem de desemprego; e aumenta-se-lhes o horário de trabalho e prolonga-se a idade da reforma aos que sobrarem (tipo campos da morte lenta...).

Poderemos discutir qual é o objectivo final deste (pré)conceito e ao que levará o empresarismo para tudo e mais alguma coisa. E se é vantajoso para o cidadão ter serviço público ou serviço privado (em que tem de pagar as mais-valias). Mas vamos deixar essa parte para mais tarde.
Para já vejam mais esta peça, saída hoje (sim, que “eles” vão-nos servindo isto às pitadas, ainda que em doses cavalares, para nos habituarmos à ideia e nos prepararmos para o que vem a seguir):

«À semelhança das medidas apresentadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), também a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sugere cortes nos subsídios de desemprego de quem tem mais anos de trabalho, redução dos salários dos funcionários públicos, particularmente os menos qualificados, e aumento do horário de trabalho, para reduzir a despesa do Estado.»   - Ler  o resto aqui: http://www.noticiasaominuto.com/economia/36130/as-sugest%c3%b5es-da-ocde-para-reduzir-o-estado-social-portugu%c3%aas  - in Notícias ao Minuto, 2013.01.15

Ainda sobre o Cavaco caseiro...

Sobre a complexa teia que tem este aranhão no centro, ver Aqui:

CAVACO E BPN - A ESCANDALOSA VERDADE


https://www.facebook.com/photo.php?v=424214484332534

(para VISUALIZAR >>> entre com o seu endereço de FACEBOOK)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Catastroika e o Cavaco caseiro...

Este escrito já saíu há uns tempos, mas mão amiga só agora é que no-lo fez chigar (já qu'aqui n'aldeia não temos dinheiro para comprar rebistas e jornais todos, nem tempo para andar nas intrenetes à cata destas coijas - ele há que dar de comer à cria, e amanhar as terras).

Este é sobre um tal de Cavaco (sem ser dos que botamos aqui ao lume), e foi escrito por um rapaz guitcho, um tal de Ricardo dos Gatos (Fedorentos) e veio na rebista "Bijão", do mês de Nobembro passado.

Aqui bai, só pra vocemecês berem como tinha razão o zarolho do Camões, quando dijia que se "mudam os tempos, logo se mudam as bontades":

«O FANTASMA DO CAVACO PASSADO

«Não sei se o leitor se lembra de um político que foi, em tempos, bastante proeminente em Portugal. Chamava-se, salvo erro, Aníbal Cavaco Silva. Parece-me que era isto. Durante algum tempo, esteve muito presente na vida portuguesa. Depois, foi tendo cada vez menos intervenção, e limitava-se a emitir algumas mensagens curtas através daquele sítio da Internet que foi inventado por um adolescente americano com o objectivo de falar com os seus colegas e amigos acerca das suas colegas e amigas. Mas, nos últimos tempos, o político de que lhe tenho estado a falar desapareceu. Uma vez que ninguém parece interessado em avisar as autoridades, permitam-me que lance eu aqui o alerta do costume:

Desapareceu de seu palácio Aníbal Cavaco Silva. Quando foi visto pela última vez, vestia fato escuro e gravata azul. É de estatura média e em princípio não dispõe de meios financeiros para se deslocar ou garantir o seu sustento, uma vez que, segundo se sabe, a reforma não lhe chega para as despesas. Se alguém possuir informações que nos possam levar ao seu paradeiro, por favor contacte a Polícia de Segurança Pública.

Está feito. Resta-nos aguardar. Enquanto esperamos, recordemos algumas das suas opiniões mais interessantes, emitidas no tempo em que ele verbalizava pensamentos. A jornalista Ana Sá Lopes topou esta semana, por acidente, com um livro de Cavaco Silva. E, por abnegado sentido profissional, leu-o. Beneficiamos todos do seu sacrifício, porque a jornalista citou um texto de 2001 em que o autor se insurge contra o então primeiro-ministro António Guterres, que pretendia cortar na despesa pública para fazer face à diminuição do crescimento económico. Escreve Cavaco Silva: "O que terão pensado os meus alunos da Universidade ao ouvirem o primeiro-ministro e o ministro das Finanças afirmarem perante as câmaras de televisão precisamente o contrário do que lhes ensinei e que leram nos livros de macroeconomia e de finanças públicas? Porque estamos em época de exames, entendi que era meu dever não ficar calado. O argumento é falso." E acrescenta, para ilustração dos seus alunos: "Quando o crescimento económico de um país abranda, a política correcta é precisamente deixar que a receita fiscal baixe automaticamente e não cortar na despesa pública. (...) Se quando um país é atingido por uma crise económica se cortasse a despesa pública, a crise ainda se agravava mais. É por isso que não se deve fazê-lo."

Em 2001, o professor Cavaco Silva tinha o dever de não ficar calado, para que os seus alunos não fossem induzidos em erro. Em 2012, tem estado bastante silencioso perante o mesmo problema. A pedagogia sobrepõe-se à democracia, o que é surpreendente e desagradável - mas, felizmente, tem fácil solução. Se todos os portugueses se matricularem num curso de economia, talvez o Presidente da República intervenha, para que o Governo não nos imponha uma solução que qualquer economista considera desastrosa. Se, em vez de cidadãos, formos alunos, talvez tenhamos direito a uma palavrinha.

Confesso que nunca votei em Cavaco Silva. Normalmente, o que me afasta de Cavaco são divergências ideológicas. Desta vez, o que me impede de votar nele são as leis da física: não me é possível votar, em 2012, no Cavaco de 2001. Mas talvez este nos desse jeito, agora.»

E podem confirmar aqui: http://visao.sapo.pt/o-fantasma-do-cavaco-passado=f696450#ixzz2I4L7wHot

Ah, o que está pintalgado de amarelo, foi da labra do meu amigo que me mandou o escrito.

C'um abraço do vosso,
ti Zé d'Aldeia

Catastroika: as consequências brutais da austeridade selvagem

Num momento em que as políticas de austeridade se revelam completamente catastróficas, vale a pena ver Catastroika, filme dos mesmos autores de "Dividocracia", agora no Youtube com legendas em português. O filme de Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi explica as motivações por trás das privatizações e as consequências brutais desta austeridade selvagem que, com a desculpa da dívida, traz apenas uma resposta – a subjugação e a miséria.

Para Ver, Reflectir... e Divulgar:
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sábado, 12 de janeiro de 2013

A mala channel

Não tenho por hábito ler e ver a imprensa diária. A imprensa diária é cara e não acrescenta nada de novo. Pés de microfone, amplificadores de bits sonoros dos donos do poder. Por hábito, e sou de péssimos hábitos, vejo o telejornal à hora da refeição, é como um alarme para me alimentar e, ao mesmo tempo, serve-me de recreação. Isto porque, na minha opinião, que vale o que vale, mas tenho direito a ela, os jornais televisivos são, cada vez mais, programas recreativos, coisa para entreter o povo enquanto come batatas com sabor a bacalhau. Por falar nisso, neste momento, há uma televisão privada a exibir como "reportagem" um senhor chamado Emanuel, das áreas do espectáculo, a fazer o jantar. Uma coisa meia snobe, coisas que ninguém faz em casa e que não deve ser grande coisa.
Espantou-me mais ainda uma "entrevista" que apresentadora/jornalista acabou de fazer a uma jovem portuguesa de 25 anos que trabalha como "blogger" de moda e que, a convite da Samsung, fez um vídeo com os seus desejos e aspirações para 2013. Aquilo parece que gerou muita polémica porque a dita jovem, inconsciente como todos os jovens, disse que tinha um desejo materialista para 2013 que era o de juntar dinheiro para comprar uma mala clássica da Channel. Isto aconteceu no mundo virtual da internet e gerou uma onda de violência virtual contra a moça. Às tantas a apresentadora/jornalista pergunta à jovem se esta tem consciência do estado do país e vai mais longe afirmando "certamente é ajudada pelos seus pais".
Por acaso, diz-nos a jovem, os pais não a podem ajudar e ela própria é uma vítima da crise. É uma vítima da crise? Como? Questiona a apresentadora/jornalista.
A mim aquilo deu-me cá uma azia dos diabos porque me pareceu nitidamente um ataque e tive pena da jovem rapariga. Ter pena de alguém é mau, mas tive. Então agora as pessoas não podem ter aspirações fúteis porque o país está em crise e todos os dias há portugueses que são obrigados a emigrar? A mim choca-me mais que a crise em que o país está mergulhado e o sofrimento pelo qual passam os portugueses não afecte moralmente os nossos políticos que, pasme-se!, vão para a Assembleia da República dormir, numa falta de vergonha inqualificável, pois sabem que estão a ser filmados e nem isso os impele a, ao menos, ao menos!, manterem a postura!
Agora que a moça queira ter dinheiro para uma mala channel a mim não me escandaliza nada! Tivera eu dinheiro para isso, certamente teria outro tanto para o resto!
Isto leva-me a questionar o estado a que o jornalismo chegou e como tenho razão em não ler jornais e optar por ver os simpsons durante a hora do jantar. É que assim poupo na conta da farmácia e nos kompensans!

Que futuro?

Houve tempos em que, sinceramente, acreditei no futuro de regiões como a transmontana. O idílico recanto rural do mundo onde o tempo parece não passar. Onde pouco importa o que dizem as agências de rating, e quem são esses?!, ou o que dizem lá por Bruxelas num edifício meio redondo e espelhado habitado por seres parecidos com pinguins, numa espécie de sub-sistema humano caracterizado pela sua organização e metodologia pouco moral. Mas a moral pouco interessa nos dias que correm e hoje não sei se acredito ou se deva acreditar.
Acreditava que tudo voltaria, mais tarde ou mais cedo, ao seu devido lugar. As pessoas, cansadas dessa sub-espécie de homem-pinguim, regressariam ao mundo rural e diriam não a um ritmo de vida estúpido. Numa espécie de retorno às raízes da identidade europeia abandonariam o deus do euro e mostrariam ao sacerdote mor pinguim Gaspar e seus companheiros que há vida para além das finanças e economia do país. E que o deus euro não passa de uma falsa promessa, recriada à imagem de outras nascidas há milhares de anos com os primeiros homens. Até por uma razão de inteligência. Há descontentamento, há recursos naturais a preservar, há a questão da felicidade e do sentido da vida. Para quê todo esse sacrifício se estivermos todos mortos? A possibilidade de mudança é real, está dentro de cada um de nós, basta para tal assumir, com todo o esforço, sacrifício e cansaço que isso traz.
Nos últimos tempos tinham surgido teorias do fim do mundo, as mais recentes, (se outras não houver entretanto), baseavam-se, supostamente, na civilização maia. Era expectável, ainda que não queiramos admitir, que algo acontecesse e fosse catalisador essencial para uma mudança profunda que nos pudesse livrar destes tempos conturbados.
Nada aconteceu e continuou tudo igual, com a diferença que o tempo passa inexoravelmente por nós. E o idílico mundo rural perdeu a gente que o caracterizava, uma espécie de aparência saudável que vivia um pouco à medida do que chamaria de tempo natural - levantavam-se quando o sol nascia, recolhiam aos primeiros sinais de escuridão, numa harmonia com o seu próprio sistema biológico. Cultivavam as terras, preservavam a natureza, respeitavam os animais e tinham como prioridade a educação.
Na verdade acho que sonhei tudo isso. Porque todo o mundo vivia em paz e pouco importavam os jornais e o que acontecia lá nas américas, onde é tudo meio doido. A vida era muito mais interessante e harmoniosa, e acho que isso só vi em filmes.
Um dia li, algures, uma teoria interessante sobre o futuro. Há várias possibilidades para o futuro e para que determinadas coisas aconteçam ou não. Estamos continuamente a tomar decisões e baseamos essas decisões naquilo que conhecemos ou esperamos do futuro, até porque o passado já foi e até ver é inalterável. Tudo o que se passa à nossa volta leva-nos a criar expectativas, ainda que não tenhamos consciência disso,e a tomar decisões com base nisso. Por vezes até dizemos, já sabia que isto ia acontecer. Já sabíamos o que ia acontecer no futuro, mas não fizemos nada para o evitar. Assim, se já sabemos para onde nos pode levar o caminho que estamos a seguir, em termos sociais, políticos e económicos, e na medida em que, como indivíduos, isso nos afecta, porque não fazemos diferente?
Há quem defenda revoluções, há quem espere um acontecimento como aquele que estaria previsto pelos maias, ou outros, e que no fundo todos sabemos que não vão acontecer, embora reste a esperança ou a fé, nalguns casos...dizem que a fé salva e salvará até. A teoria que li, para continuar este pensamento desorganizado, diz então que se tivermos uma atitude e pensamento positivo, se acreditarmos num futuro diferente, se conseguirmos que muitos pensem no mesmo sentido, poderemos ser alavanca de mudança e concretizar um futuro diferente. Dizem mesmo que se 200 pessoas entrarem num avião com a convicção que ele não levanta voo, ele não levantará. Chamam-lhe de energia.
Não sei até que ponto será treta. Gostava que fosse verdade. O autor do livro onde li esta teoria criou mesmo um site com o nome, em francês, A árvore das possibilidades, onde cada pessoa pode deixar o seu contributo, por área, daquilo que deseja que seja um cenário de futuro. Esperança ou fé? Acreditar ou cair no marasmo? Agir ou deixar acontecer?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

No future. Um grande caos debaixo dos céus

Um bom artigo, de Fernando Ramalho, publicado na Imprópria, revista semestral da Unipop:


A vontade política, ou a falta dela

Para o povo que está por Lisboa, e para os que têm possibilidade de lá dar um saltinho, como quem diz, fica a sugestão: 21, 22 e 23 de Janeiro o espaço colectivo Unipop vai promover um seminário dedicado à vontade política.
Nos últimos anos, especialmente com a explosão da crise económica e financeira, assistiu-se, a nível global, à intensificação de um vasto conjunto de lutas políticas e sociais. O problema da subjectividade, nomeadamente o da emergência de um sujeito colectivo da política, volta a colocar-se, desse modo, através da mobilização em larga escala para gestos de resistência e proposta, de indignação, e de reflexão programática sobre cenários mais ou menos difusos de mudança.
Se é verdade, por um lado, que este fenómeno se pode deixar entender à luz de uma alteração do paradigma pelo qual temos, até agora, pensado a política, parece também certo, por outro, que estas lutas são muitas vezes reconduzidas a uma filosofia política clássica, assente em categorias como «organização», «programa», «poder», «estado» ou «objectivos». Neste quadro, a categoria de «vontade» ganha uma nova relevância teórica, encontrando-se no centro de alguns dos mais importantes debates filosóficos actuais à volta da política.
Verifica-se, assim, no plano da produção teórica, uma recuperação da ideia de «vontade», bem como da tradição do voluntarismo político associado a figuras como Gramsci, Lenine ou Franz Fanon, enquanto elementos indispensáveis para pensar a subjectividade política. Esta é a proposta de Peter Hallward.
Por outro lado, temos assistido, nas últimas décadas, à ontologização de alguma filosofia política que, precisamente, questiona essa mesma concepção de vontade, e que vem no seguimento de uma longa linhagem crítica desta categoria, que se foi desenvolvendo ao longo do século XX, e que podemos de modo excessivamente simplista, arrumar em duas tendências: a crítica heideggeriana da vontade, que se prolonga em Hannah Arendt e tem hoje em Giorgio Agamben, porventura, o seu representante mais notório; a linhagem espinosana e deleuziana, que podemos encontrar, por exemplo, em François Zourabichvilli.
O carácter por vezes abstracto da formulação teórica não nos deve enganar: o que está em jogo é a discussão à volta do modo como a resistência e a luta se podem pensar no aqui e no agora, e como é que o podemos fazer sem repetir os erros do passado.
Neste seminário intensivo propomos aprofundar este debate através das suas linhas de tensão, a partir da leitura conjunta de uma selecção de textos.
Propomos, nesse sentido, os seguintes textos para discussão nas sessões:


· André Barata, «Prefácio», Primeiras Vontades – da liberdade política para tempos árduos, 2012;

· V. I. Lenine, Que Fazer?, 1902;

· François Zourabichvili, «Deleuze e o possível (do involuntarismo em política)», 1995;

· Peter Hallward, «Communism of the Intellect, Communism of the Will», 2009;

· Giorgio Agamben, «Le due ontologie, ovvero come il dovere è entrato nell'etica», Opus Dei: Archeologia dell'ufficio, Homo sacer II 5, 2012.

Datas: Dias 21, 22 e 23 de Janeiro, das 18h às 20h

Organização: UNIPOP

Coordenação: André Barata, André Dias, Miguel Cardoso

Apoio: «Seu Vicente» Residências Artísticas, c.e.m (centro em movimento), Câmara Municipal de Lisboa

Local: «Seu Vicente» Residências Artísticas (Rua da Boavista, n.º 46 – 1.º, Lisboa – http://t.ymlp254.net/wqaxawesyafauqeatauhyqw/click.php, localização aqui)

A frequência do seminário é livre, mas pede-se aos interessados que efectuem uma inscrição prévia, enviando um e-mail com o nome para cursopcc@gmail.com.

Lugares limitados.

No final do seminário será emitido um certificado de frequência.

André Barata é Doutor em Filosofia Contemporânea e professor da Universidade da Beira Interior, com publicações nas áreas da Psicologia Fenomenológica e da Filosofia Política.

André Dias é doutorando em Ciências da Comunicação/Cinema na Universidade Nova de Lisboa. Investiga as relações entre cinema e filosofia política. Organizou uma conferência sobre biopolítica e traduziu Giorgio Agamben.

Miguel Cardoso é doutorando em Literatura Inglesa em Birkbeck College, University of London.

A Unipop é um colectivo de Lisboa constituído em 2007 com o objectivo de disseminar o pensamento crítico e a prática militante para lá dos limites do circuito académico e da política institucional e de abrir novos espaços onde o capitalismo contemporâneo possa ser sujeito à análise e à intervenção política.

Memórias de Trás-os-Montes - Povoações desaparecidas

Trás-os-Montes é uma terra cheia de histórias por contar. Vasculhando antigos arquivos de quando percorria essas estradas sinuosas ladeadas por montes e rochedos, veio-me à mão uma história de uma povoação desaparecida após uma epidemia de peste, no século XIX. Persistem as ruínas de um local que poderia ser aproveitado de forma extraordinária. A chegada a este local faz-se através de um caminho em terra batida, de difícil acesso, uma descida que conflui num vale onde emergem os vestígios: meia dúzia de casas em ruínas e moinhos abandonados. O lugar, chamado Benrezes, perto de Vale da Porca e Limãos, foi habitado apenas até ao século XIX. Nas aldeias próximas, raro é o habitante que não tenha ouvido falar em Banrezes, ou Banrez, como alguns lhe chamam. Dizem que aquele é “um local muito estranho”, que “dá medo”. A pouca História existente sobre o local aponta para que uma epidemia de febre tifóide e paludismo tenha estado na origem do seu despovoamento, conforme escreveu Manuel Cardoso, em “Lampaças e Ledra”, subsídios para a história da região de Macedo de Cavaleiros. Já o livro “Santo Ambrósio, de António Fernandes e António de Sousa Araújo, conta que a epidemia terá sido atribuída à lavagem de um caixão que serviria para todos. “A lavagem do caixão contaminou as águas da fonte e do rio Azibo e deu origem à epidemia devastadora de pessoas e animais”, escrevem os autores.

domingo, 6 de janeiro de 2013

«O universal é o local sem paredes»
MIGUEL TORGA
in "Traço de União", 2ª. ed. revista, Coimbra, s/d (1969), p. 69

E diz o nosso Povo que quem viu a sua aldeia viu o mundo todo...
Longe estava o povo de imaginar que um dia o Mundo se poderia tornar uma Aldeia, dita global, também muito por culpa desta ferramenta que se chama internet...

Estas linhas podem ser lidas aqui, num lugarejo de Trás-os-Montes, ou algures numa megalópole americana, europeia, asiática, ou algures em África, Oceania, pólo Norte ou Antártida.

Haverá coisas que só a nós, os da nossa rua ou aldeia, vila ou cidade, dizem respeito. 
Textos e imagens de lugares - os nossos lugares - que apelam à nostalgia da nossa ruralidade, que sentimos e amamos. E que infelizmente se estão a desmoronar, a definhar, a morrer...
Será preocupação mais nossa este rincão sagrado, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, terra de emigração endémica ao longo dos tempos, à ilharga do reino (e depois república) de Portugal, cujos dirigentes nos voltam a apontar a porta de saída, como... a saída!

Interessa-nos a luta insana de quem (ainda) ara a terra e/ou lida com a cria, com as eternas preocupações pela falta de chuva, malinas das plantas, dos animais e da gente, desvalorização da actividade e dos produtos agrícolas, falta de escoamento dos mesmos, e, nos tempos que correm, a perseguição do mercado global capitalista, através dos seus agentes (Fisco, Asae's e quejandos).

Todavia interessam-nos, igualmente, grandes questões que nos envolvem a todos, como habitantes do planeta, ou integrantes da chamada "civilização ocidental" (crise económica e de valores, neo-liberalismo selvagem, emigração/imigração, multiculturalismo, crise energética, desertificação, mudanças climáticas, destruição da Natureza, etc).
Assim, pensámos que seria interessante trocar impressões neste espaço alargado que é a WEB (a teia), estendendo a rede de contactos a presumíveis interessados(as) numa reflexão alargada sobre temas tão diversos, que vão da saudosa Aldeia real à Aldeia planetária, cujo resultado, a tal de "Globalização", parece ser a causa de todas as incertezas destes começos de século e de novo milénio.

O Mundo visto do nosso "Locus", é o que vos propomos.

Com votos de um Ano de 2013 menos mau, já que a Esperança deverá de ser a última a morrer...

                                                                                                 Maria do Fundo do Povo
                                                                                                 e Zé d'Aldeia